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Transtorno psicótico agudo e transitório: critérios e diferencial

Transtorno psicótico agudo e transitório (6A23): critérios da CID-11, o que o separa do início da esquizofrenia, o diferencial e o seguimento.

Numa sessão de acompanhamento, um jovem já recuperado conversa com a psicóloga ao lado do pai, que revê com ela as anotações das últimas semanas.

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Neste artigo
  1. O que é o transtorno psicótico agudo e transitório?
  2. O que separa esse quadro do início de uma esquizofrenia?
  3. CID-11, CID-10 e DSM-5-TR: os nomes se equivalem?
  4. O estresse desencadeia o transtorno psicótico agudo e transitório?
  5. O que precisa ser afastado antes do diagnóstico?
  6. Que perguntas ajudam na entrevista?
  7. O cuidado não espera a classificação
  8. Dois casos fictícios: mesma duração, configurações diferentes
  9. O que acontece depois da remissão?
  10. Como treinar o diferencial das psicoses de início recente
  11. Perguntas frequentes
  12. Referências
Em resumo

O transtorno psicótico agudo e transitório (CID-11, 6A23) é uma psicose de início abrupto, que passa do estado não psicótico ao claramente psicótico em até duas semanas, sem pródromo. Os sintomas mudam rapidamente de tipo e intensidade, não há sintomas negativos, e o episódio dura até três meses, em geral de dias a um mês. Um quadro com sintomas estáveis de esquizofrenia e menos de um mês recebe outro diagnóstico.

Uma pessoa está psicótica há cinco dias, e alguém anota “psicose aguda”. A palavra descreve o início. O diagnóstico de transtorno psicótico agudo e transitório, porém, exige muito mais do que um começo recente: exige uma configuração específica dos sintomas, e só se confirma com o curso.

O panorama das hipóteses está no guia de diagnóstico diferencial das psicoses. Aqui aprofundo uma categoria da CID-11 que costuma ser usada como sala de espera para qualquer psicose recente, e não deveria.

O que é o transtorno psicótico agudo e transitório?

É um transtorno psicótico primário marcado por instalação súbita e remissão rápida. Nas descrições clínicas e requisitos diagnósticos da OMS, o quadro reúne:

  1. Início agudo: passagem de um estado não psicótico para um estado claramente psicótico em até duas semanas, sem pródromo;
  2. Sintomas psicóticos variados, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado, perplexidade ou confusão e alterações do afeto e do humor, às vezes com sinais motores parecidos com os da catatonia;
  3. Mudança rápida: os sintomas variam em tipo e intensidade, de um dia para o outro ou até dentro do mesmo dia;
  4. Ausência de sintomas negativos durante o episódio;
  5. Duração limitada: até três meses, em geral de alguns dias a um mês;
  6. Exclusões: o quadro não se explica por condição médica, substância, medicamento ou outro transtorno mental.

O início abrupto é o traço que mais separa esse quadro das outras psicoses. Na esquizofrenia, é comum uma instalação insidiosa, com semanas ou meses de mudanças sutis antes dos sintomas francos. Aqui, a pessoa estava funcionando como sempre e, em poucos dias, apresenta um quadro psicótico franco, que a família reconhece como uma ruptura.

A mudança rápida também tem um sentido preciso. O conteúdo e o foco dos delírios e das alucinações se transformam: num dia a pessoa acredita que recebe mensagens de uma missão especial; no seguinte, que os mesmos sinais anunciam uma ameaça; depois surgem vozes que antes não existiam. Essa instabilidade é incomum na esquizofrenia, em que o conteúdo tende a se manter.

O que separa esse quadro do início de uma esquizofrenia?

Esta é a pergunta que mais importa, porque os dois quadros podem estar na mesma sala de urgência na mesma semana. A tabela resume os traços que mais ajudam a separar as três situações.

TraçoTranstorno psicótico agudo e transitórioQuadro de esquizofrenia com menos de um mêsEsquizofrenia
InstalaçãoAté duas semanas, sem pródromoPode ter pródromoFrequentemente insidiosa
Sintomas ao longo dos diasMudam rapidamente de tipo e intensidadeRelativamente estáveisRelativamente estáveis
Sintomas negativosAusentesPodem estar presentesFrequentes
DuraçãoAté três mesesMenos de um mês até agoraUm mês ou mais
Diagnóstico na CID-116A23Outro transtorno psicótico primário especificado6A20

A coluna do meio é a que mais gera erro. A OMS é explícita: quando o quadro preenche os requisitos da esquizofrenia, exceto pela duração inferior a um mês, e não há história prévia de esquizofrenia, o diagnóstico é outro transtorno psicótico primário especificado, e não transtorno psicótico agudo e transitório.

Em outras palavras, 6A23 descreve uma configuração, e não uma etapa do calendário. Um quadro com sintomas estáveis, que ainda não completou um mês, pertence à outra categoria. Se passar de um mês com os requisitos preenchidos, o diagnóstico passa a ser esquizofrenia. O raciocínio completo desse diferencial está em esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo.

O inverso também vale. Um quadro que começou como agudo e transitório e ultrapassa três meses deixa de caber em 6A23 e exige reavaliação completa.

CID-11, CID-10 e DSM-5-TR: os nomes se equivalem?

Não. Os três sistemas usam categorias parecidas com limites diferentes, e um registro antigo precisa ser relido antes de ser convertido.

  • CID-10 (F23): a categoria era mais ampla e incluía subtipos com sintomas semelhantes aos da esquizofrenia, além do subtipo polimórfico. A meta-análise de Provenzani e colaboradores registra que a CID-11 restringiu a categoria na transição.
  • CID-11 (6A23): mantém o núcleo polimórfico, com início agudo, mudança rápida, ausência de sintomas negativos e duração de até três meses.
  • DSM-5-TR (transtorno psicótico breve): a Associação Americana de Psiquiatria descreve um episódio de pelo menos um dia e menos de um mês, seguido de retorno completo ao funcionamento anterior, sem exigir a mudança rápida dos sintomas.

Um paciente com transtorno psicótico breve no DSM pode, portanto, não preencher 6A23, e vice-versa. Ao receber um laudo com F23, procure a descrição clínica que o acompanhou antes de reclassificar.

Esse cuidado vale também para a leitura de pesquisas. Estudos que misturam categorias de sistemas diferentes produzem números que não se aplicam diretamente a quem tem diagnóstico pela CID-11.

O estresse desencadeia o transtorno psicótico agudo e transitório?

Com frequência, o episódio começa depois de um acontecimento estressante intenso: uma perda, uma violência, uma mudança brusca. Essa relação ajuda a contar a história, mas pede atenção a dois diferenciais que também têm início demarcado por um estressor.

Transtorno de estresse pós-traumático. Depois de um evento traumático, a pessoa revive a cena em flashbacks e pesadelos, evita tudo o que lembra o trauma e fica em estado de alerta, com sobressaltos. O flashback pode parecer alucinação e a hipervigilância pode parecer desconfiança paranoide. O que distingue é a ligação com o trauma: a experiência revive o evento, e a pessoa sabe que se trata de uma lembrança, mesmo quando ela é invasiva.

Transtorno de adaptação. Sintomas emocionais e comportamentais surgem como resposta a um estressor, com sofrimento maior do que o esperado e prejuízo no funcionamento, sem delírios nem alucinações.

Em todos os casos, o parâmetro é a própria pessoa antes do evento. Pergunte como ela reagia antes, quando a mudança começou e o que exatamente mudou.

O que precisa ser afastado antes do diagnóstico?

A variação rápida é o traço mais característico do quadro e também o mais perigoso de interpretar, porque outras condições produzem apresentações flutuantes.

Delirium. No delirium, o que flutua é a atenção e o nível de consciência: a pessoa se desorienta, perde o fio da conversa e alterna momentos de lucidez e confusão. A diretriz NICE CG103 orienta avaliar sempre alterações recentes de atenção, cognição e percepção. No transtorno psicótico agudo e transitório, o que muda é o conteúdo psicótico; a atenção pode estar preservada. Na dúvida, a avaliação médica vem primeiro.

Substâncias e medicamentos. Intoxicação e abstinência produzem psicoses de início abrupto e curso breve. A cronologia do uso e a evolução com a abstinência orientam a decisão, como detalho em psicose induzida por substância.

Episódio de humor. Oscilações emocionais intensas são comuns no episódio agudo, mas um episódio maníaco, depressivo ou misto completo, com a psicose dentro dele, muda o diagnóstico. O contraste está em mania com sintomas psicóticos.

Condições médicas. Infecções, alterações metabólicas, epilepsia e outras doenças neurológicas podem se apresentar com psicose de início súbito. O NIMH lembra que a psicose é um sintoma de várias condições, e não um diagnóstico em si.

Que perguntas ajudam na entrevista?

As perguntas mais úteis reconstroem o início e comparam os dias. Algumas que costumo usar, com a pessoa e com quem convive com ela:

  1. “Qual foi o último dia em que você estava como sempre?” Para a família: “Quando ele começou a mudar?”
  2. “O que você acreditava ontem sobre isso? E hoje, mudou alguma coisa?”
  3. “Nos meses anteriores, algo mudou no sono, no trabalho, nos estudos ou nas amizades?”
  4. “Você usou alguma substância ou mudou algum remédio nas últimas semanas?”
  5. “Aconteceu algo muito difícil pouco antes? Essa cena volta à sua cabeça como se estivesse acontecendo de novo?”

A primeira pergunta localiza a instalação; a segunda testa a mudança rápida; a terceira procura o pródromo; as duas últimas abrem o diferencial. Quando a família diz que “começou de repente”, confirme se ela acompanhou os dias anteriores: às vezes, o início que ela descreve é o dia em que percebeu a mudança.

O cuidado não espera a classificação

A diretriz NICE CG178 recomenda avaliação especializada sem demora no primeiro episódio psicótico, com atenção a risco, saúde física, uso de substâncias e contexto. A palavra “transitório” descreve o curso esperado, e jamais serve como motivo para adiar o atendimento.

Em risco imediato, acione o SAMU 192. Ao encaminhar, descreva o que foi observado, quando começou e o que mudou de um dia para o outro. Esse relato vale mais do que um rótulo diagnóstico provisório.

Também cabe cuidado na comunicação com a família. “Transitório” costuma ser ouvido como promessa de que tudo vai passar e de que o acompanhamento é dispensável. O que se sabe no início é a forma de instalação; o curso só se conhece acompanhando.

Dois casos fictícios: mesma duração, configurações diferentes

Ivo e Lia são personagens criados para este artigo.

Caso fictício

Ivo, 34 anos: cinco dias depois de um assalto

Ivo trabalhava normalmente até ser assaltado com uma arma apontada para a cabeça. Três dias depois, passa a interpretar conversas de desconhecidos como mensagens dirigidas a ele. Num dia, acredita que recebe instruções para uma missão; no seguinte, que os mesmos sinais anunciam que será morto. No quinto dia, começa a ouvir vozes que comentam seus movimentos, e a família o leva à urgência.

A avaliação médica afasta intoxicação, delirium e condições clínicas. Não há episódio de humor completo nem sintomas negativos. Colegas e familiares confirmam que, até o assalto, ele estava como sempre.

Os sintomas mudam de conteúdo quase diariamente e remitem na quarta semana, durante o cuidado instituído.

Leitura: instalação em poucos dias, sem pródromo, sintomas polimórficos, ausência de sintomas negativos e remissão em menos de três meses. A configuração sustenta o transtorno psicótico agudo e transitório. O estresse do assalto conta a história do início; os sintomas psicóticos e a ausência de revivescência da cena afastam o estresse pós-traumático como explicação principal. O seguimento continua depois da remissão.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

Caso fictício

Lia, 27 anos: vinte dias de uma certeza estável

Lia chega com vinte dias de ideias de perseguição e vozes que comentam suas ações. Uma leitura apressada a colocaria no mesmo grupo de Ivo, porque também ainda não completou um mês.

A entrevista mostra outra configuração. O conteúdo é o mesmo desde o início, organizado em torno dos vizinhos. A mãe relata que, nos seis meses anteriores, Lia se isolou, abandonou a faculdade e passou a cuidar pouco de si.

Leitura: há um pródromo, os sintomas são estáveis e há sinais que precisam ser investigados como sintomas negativos. Se os requisitos da esquizofrenia estiverem preenchidos, exceto pela duração, o diagnóstico adequado é outro transtorno psicótico primário especificado, com reavaliação ao completar um mês.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

O número de dias era parecido. A forma de instalação, a estabilidade do conteúdo e a história anterior levaram a caminhos diferentes.

O diagnóstico de transtorno psicótico agudo e transitório depende de comparar o que a pessoa relatava num dia com o que relatava no seguinte, e de saber quando tudo começou. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.

O que acontece depois da remissão?

A remissão encerra o episódio, e o acompanhamento continua. Duas revisões ajudam a entender por quê.

Na meta-análise de Provenzani e colaboradores, de 2021, que reuniu 15.729 pessoas com diferentes definições de episódio psicótico breve, a recorrência de psicose em seguimentos de pelo menos 36 meses foi de 33%. Uma revisão de He e Wang, de 2026, com 14 estudos e 12.920 participantes com diagnóstico inicial de transtorno psicótico agudo e transitório, estimou estabilidade diagnóstica de 41%, com alta heterogeneidade entre os estudos.

Esses números descrevem grupos, com definições diferentes, e não permitem prever o curso de uma pessoa. Eles mostram que uma parte relevante dos diagnósticos muda com o tempo, muitas vezes para quadros do espectro da esquizofrenia ou do humor.

A recorrência, por si, não muda o diagnóstico. Uma pessoa pode ter mais de um episódio ao longo da vida, e, se cada um mantiver a configuração aguda, polimórfica e breve, o diagnóstico continua sendo o mesmo. A CID-11 registra essa diferença no código: 6A23.0 para o primeiro episódio e 6A23.1 para episódios múltiplos. O que muda o diagnóstico é a configuração: sintomas que se estabilizam, persistem ou vêm acompanhados de sintomas negativos.

Por isso, o registro de cada episódio precisa ser detalhado o suficiente para que outra pessoa, anos depois, consiga comparar. O raciocínio diagnóstico em saúde mental discute como manter uma hipótese aberta à revisão.

Na prática clínica

Diante de uma psicose de início recente, reconstruo primeiro a última data em que a pessoa estava comprovadamente como sempre. Sem esse ponto, é impossível dizer se a instalação foi abrupta.

Depois registro o conteúdo dos sintomas em dias diferentes, com exemplos concretos e comparáveis, porque é essa comparação que mostra a mudança rápida. “Quadro variável” diz pouco; “ontem falava de uma missão, hoje de uma ameaça, e surgiram vozes” diz muito.

Por fim, procuro ativamente sinais de pródromo e sintomas negativos. A ausência deles precisa ser verificada, e não presumida.

Para pacientes e famílias

Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.

Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo

Como treinar o diferencial das psicoses de início recente

Na primeira semana de um quadro psicótico, a pressão por um nome é grande, e a graduação raramente ensina a diferença entre uma psicose aguda polimórfica e o início de uma esquizofrenia. Sem esse repertório, 6A23 vira sala de espera, e a pessoa recebe um diagnóstico que não descreve o que ela vive.

Na Formação em Psicopatologia, as psicoses são estudadas a partir da semiologia e das síndromes, com esquizofrenia, esquizoafetivo, transtorno psicótico agudo e transitório e os diferenciais com humor, substâncias e condições médicas, e casos clínicos para treinar a decisão. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.

É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é repertório para reconhecer a configuração certa quando o próximo quadro agudo chegar.

Perguntas frequentes

Toda psicose recente é um transtorno psicótico agudo e transitório?

Não. O diagnóstico exige início em até duas semanas sem pródromo, sintomas que mudam rapidamente, ausência de sintomas negativos e duração de até três meses. Um quadro recente com sintomas estáveis recebe outro diagnóstico.

Qual é a diferença para o transtorno psicótico breve do DSM?

O transtorno psicótico breve dura de um dia a menos de um mês, com retorno ao funcionamento anterior, e dispensa a mudança rápida dos sintomas. O 6A23 da CID-11 admite até três meses e exige o padrão polimórfico.

Quanto tempo dura o transtorno psicótico agudo e transitório?

Até três meses, na maioria das vezes de alguns dias a um mês. Se ultrapassar três meses, a hipótese precisa ser revista.

O transtorno psicótico agudo e transitório pode voltar?

Pode. Uma pessoa pode ter mais de um episódio, e o diagnóstico se mantém enquanto cada episódio seguir a mesma configuração. Por isso o seguimento continua depois da remissão.

Um evento estressante antes do episódio confirma o diagnóstico?

Não. O estresse costuma anteceder o quadro, mas o diagnóstico depende da configuração dos sintomas. Estresse pós-traumático e transtorno de adaptação também entram no diferencial.

É preciso esperar o diagnóstico para encaminhar?

Não. Um primeiro episódio psicótico pede avaliação especializada sem demora, e o diagnóstico se define durante o acompanhamento.

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