Transtorno psicótico agudo e transitório: critérios e diferencial
Transtorno psicótico agudo e transitório (6A23): critérios da CID-11, o que o separa do início da esquizofrenia, o diferencial e o seguimento.

Neste artigo
- O que é o transtorno psicótico agudo e transitório?
- O que separa esse quadro do início de uma esquizofrenia?
- CID-11, CID-10 e DSM-5-TR: os nomes se equivalem?
- O estresse desencadeia o transtorno psicótico agudo e transitório?
- O que precisa ser afastado antes do diagnóstico?
- Que perguntas ajudam na entrevista?
- O cuidado não espera a classificação
- Dois casos fictícios: mesma duração, configurações diferentes
- O que acontece depois da remissão?
- Como treinar o diferencial das psicoses de início recente
- Perguntas frequentes
- Referências
O transtorno psicótico agudo e transitório (CID-11, 6A23) é uma psicose de início abrupto, que passa do estado não psicótico ao claramente psicótico em até duas semanas, sem pródromo. Os sintomas mudam rapidamente de tipo e intensidade, não há sintomas negativos, e o episódio dura até três meses, em geral de dias a um mês. Um quadro com sintomas estáveis de esquizofrenia e menos de um mês recebe outro diagnóstico.
Uma pessoa está psicótica há cinco dias, e alguém anota “psicose aguda”. A palavra descreve o início. O diagnóstico de transtorno psicótico agudo e transitório, porém, exige muito mais do que um começo recente: exige uma configuração específica dos sintomas, e só se confirma com o curso.
O panorama das hipóteses está no guia de diagnóstico diferencial das psicoses. Aqui aprofundo uma categoria da CID-11 que costuma ser usada como sala de espera para qualquer psicose recente, e não deveria.
O que é o transtorno psicótico agudo e transitório?
É um transtorno psicótico primário marcado por instalação súbita e remissão rápida. Nas descrições clínicas e requisitos diagnósticos da OMS, o quadro reúne:
- Início agudo: passagem de um estado não psicótico para um estado claramente psicótico em até duas semanas, sem pródromo;
- Sintomas psicóticos variados, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado, perplexidade ou confusão e alterações do afeto e do humor, às vezes com sinais motores parecidos com os da catatonia;
- Mudança rápida: os sintomas variam em tipo e intensidade, de um dia para o outro ou até dentro do mesmo dia;
- Ausência de sintomas negativos durante o episódio;
- Duração limitada: até três meses, em geral de alguns dias a um mês;
- Exclusões: o quadro não se explica por condição médica, substância, medicamento ou outro transtorno mental.
O início abrupto é o traço que mais separa esse quadro das outras psicoses. Na esquizofrenia, é comum uma instalação insidiosa, com semanas ou meses de mudanças sutis antes dos sintomas francos. Aqui, a pessoa estava funcionando como sempre e, em poucos dias, apresenta um quadro psicótico franco, que a família reconhece como uma ruptura.
A mudança rápida também tem um sentido preciso. O conteúdo e o foco dos delírios e das alucinações se transformam: num dia a pessoa acredita que recebe mensagens de uma missão especial; no seguinte, que os mesmos sinais anunciam uma ameaça; depois surgem vozes que antes não existiam. Essa instabilidade é incomum na esquizofrenia, em que o conteúdo tende a se manter.
O que separa esse quadro do início de uma esquizofrenia?
Esta é a pergunta que mais importa, porque os dois quadros podem estar na mesma sala de urgência na mesma semana. A tabela resume os traços que mais ajudam a separar as três situações.
| Traço | Transtorno psicótico agudo e transitório | Quadro de esquizofrenia com menos de um mês | Esquizofrenia |
|---|---|---|---|
| Instalação | Até duas semanas, sem pródromo | Pode ter pródromo | Frequentemente insidiosa |
| Sintomas ao longo dos dias | Mudam rapidamente de tipo e intensidade | Relativamente estáveis | Relativamente estáveis |
| Sintomas negativos | Ausentes | Podem estar presentes | Frequentes |
| Duração | Até três meses | Menos de um mês até agora | Um mês ou mais |
| Diagnóstico na CID-11 | 6A23 | Outro transtorno psicótico primário especificado | 6A20 |
A coluna do meio é a que mais gera erro. A OMS é explícita: quando o quadro preenche os requisitos da esquizofrenia, exceto pela duração inferior a um mês, e não há história prévia de esquizofrenia, o diagnóstico é outro transtorno psicótico primário especificado, e não transtorno psicótico agudo e transitório.
Em outras palavras, 6A23 descreve uma configuração, e não uma etapa do calendário. Um quadro com sintomas estáveis, que ainda não completou um mês, pertence à outra categoria. Se passar de um mês com os requisitos preenchidos, o diagnóstico passa a ser esquizofrenia. O raciocínio completo desse diferencial está em esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo.
O inverso também vale. Um quadro que começou como agudo e transitório e ultrapassa três meses deixa de caber em 6A23 e exige reavaliação completa.
CID-11, CID-10 e DSM-5-TR: os nomes se equivalem?
Não. Os três sistemas usam categorias parecidas com limites diferentes, e um registro antigo precisa ser relido antes de ser convertido.
- CID-10 (F23): a categoria era mais ampla e incluía subtipos com sintomas semelhantes aos da esquizofrenia, além do subtipo polimórfico. A meta-análise de Provenzani e colaboradores registra que a CID-11 restringiu a categoria na transição.
- CID-11 (6A23): mantém o núcleo polimórfico, com início agudo, mudança rápida, ausência de sintomas negativos e duração de até três meses.
- DSM-5-TR (transtorno psicótico breve): a Associação Americana de Psiquiatria descreve um episódio de pelo menos um dia e menos de um mês, seguido de retorno completo ao funcionamento anterior, sem exigir a mudança rápida dos sintomas.
Um paciente com transtorno psicótico breve no DSM pode, portanto, não preencher 6A23, e vice-versa. Ao receber um laudo com F23, procure a descrição clínica que o acompanhou antes de reclassificar.
Esse cuidado vale também para a leitura de pesquisas. Estudos que misturam categorias de sistemas diferentes produzem números que não se aplicam diretamente a quem tem diagnóstico pela CID-11.
O estresse desencadeia o transtorno psicótico agudo e transitório?
Com frequência, o episódio começa depois de um acontecimento estressante intenso: uma perda, uma violência, uma mudança brusca. Essa relação ajuda a contar a história, mas pede atenção a dois diferenciais que também têm início demarcado por um estressor.
Transtorno de estresse pós-traumático. Depois de um evento traumático, a pessoa revive a cena em flashbacks e pesadelos, evita tudo o que lembra o trauma e fica em estado de alerta, com sobressaltos. O flashback pode parecer alucinação e a hipervigilância pode parecer desconfiança paranoide. O que distingue é a ligação com o trauma: a experiência revive o evento, e a pessoa sabe que se trata de uma lembrança, mesmo quando ela é invasiva.
Transtorno de adaptação. Sintomas emocionais e comportamentais surgem como resposta a um estressor, com sofrimento maior do que o esperado e prejuízo no funcionamento, sem delírios nem alucinações.
Em todos os casos, o parâmetro é a própria pessoa antes do evento. Pergunte como ela reagia antes, quando a mudança começou e o que exatamente mudou.
O que precisa ser afastado antes do diagnóstico?
A variação rápida é o traço mais característico do quadro e também o mais perigoso de interpretar, porque outras condições produzem apresentações flutuantes.
Delirium. No delirium, o que flutua é a atenção e o nível de consciência: a pessoa se desorienta, perde o fio da conversa e alterna momentos de lucidez e confusão. A diretriz NICE CG103 orienta avaliar sempre alterações recentes de atenção, cognição e percepção. No transtorno psicótico agudo e transitório, o que muda é o conteúdo psicótico; a atenção pode estar preservada. Na dúvida, a avaliação médica vem primeiro.
Substâncias e medicamentos. Intoxicação e abstinência produzem psicoses de início abrupto e curso breve. A cronologia do uso e a evolução com a abstinência orientam a decisão, como detalho em psicose induzida por substância.
Episódio de humor. Oscilações emocionais intensas são comuns no episódio agudo, mas um episódio maníaco, depressivo ou misto completo, com a psicose dentro dele, muda o diagnóstico. O contraste está em mania com sintomas psicóticos.
Condições médicas. Infecções, alterações metabólicas, epilepsia e outras doenças neurológicas podem se apresentar com psicose de início súbito. O NIMH lembra que a psicose é um sintoma de várias condições, e não um diagnóstico em si.
Que perguntas ajudam na entrevista?
As perguntas mais úteis reconstroem o início e comparam os dias. Algumas que costumo usar, com a pessoa e com quem convive com ela:
- “Qual foi o último dia em que você estava como sempre?” Para a família: “Quando ele começou a mudar?”
- “O que você acreditava ontem sobre isso? E hoje, mudou alguma coisa?”
- “Nos meses anteriores, algo mudou no sono, no trabalho, nos estudos ou nas amizades?”
- “Você usou alguma substância ou mudou algum remédio nas últimas semanas?”
- “Aconteceu algo muito difícil pouco antes? Essa cena volta à sua cabeça como se estivesse acontecendo de novo?”
A primeira pergunta localiza a instalação; a segunda testa a mudança rápida; a terceira procura o pródromo; as duas últimas abrem o diferencial. Quando a família diz que “começou de repente”, confirme se ela acompanhou os dias anteriores: às vezes, o início que ela descreve é o dia em que percebeu a mudança.
O cuidado não espera a classificação
A diretriz NICE CG178 recomenda avaliação especializada sem demora no primeiro episódio psicótico, com atenção a risco, saúde física, uso de substâncias e contexto. A palavra “transitório” descreve o curso esperado, e jamais serve como motivo para adiar o atendimento.
Em risco imediato, acione o SAMU 192. Ao encaminhar, descreva o que foi observado, quando começou e o que mudou de um dia para o outro. Esse relato vale mais do que um rótulo diagnóstico provisório.
Também cabe cuidado na comunicação com a família. “Transitório” costuma ser ouvido como promessa de que tudo vai passar e de que o acompanhamento é dispensável. O que se sabe no início é a forma de instalação; o curso só se conhece acompanhando.
Dois casos fictícios: mesma duração, configurações diferentes
Ivo e Lia são personagens criados para este artigo.
Ivo, 34 anos: cinco dias depois de um assalto
Ivo trabalhava normalmente até ser assaltado com uma arma apontada para a cabeça. Três dias depois, passa a interpretar conversas de desconhecidos como mensagens dirigidas a ele. Num dia, acredita que recebe instruções para uma missão; no seguinte, que os mesmos sinais anunciam que será morto. No quinto dia, começa a ouvir vozes que comentam seus movimentos, e a família o leva à urgência.
A avaliação médica afasta intoxicação, delirium e condições clínicas. Não há episódio de humor completo nem sintomas negativos. Colegas e familiares confirmam que, até o assalto, ele estava como sempre.
Os sintomas mudam de conteúdo quase diariamente e remitem na quarta semana, durante o cuidado instituído.
Leitura: instalação em poucos dias, sem pródromo, sintomas polimórficos, ausência de sintomas negativos e remissão em menos de três meses. A configuração sustenta o transtorno psicótico agudo e transitório. O estresse do assalto conta a história do início; os sintomas psicóticos e a ausência de revivescência da cena afastam o estresse pós-traumático como explicação principal. O seguimento continua depois da remissão.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
Lia, 27 anos: vinte dias de uma certeza estável
Lia chega com vinte dias de ideias de perseguição e vozes que comentam suas ações. Uma leitura apressada a colocaria no mesmo grupo de Ivo, porque também ainda não completou um mês.
A entrevista mostra outra configuração. O conteúdo é o mesmo desde o início, organizado em torno dos vizinhos. A mãe relata que, nos seis meses anteriores, Lia se isolou, abandonou a faculdade e passou a cuidar pouco de si.
Leitura: há um pródromo, os sintomas são estáveis e há sinais que precisam ser investigados como sintomas negativos. Se os requisitos da esquizofrenia estiverem preenchidos, exceto pela duração, o diagnóstico adequado é outro transtorno psicótico primário especificado, com reavaliação ao completar um mês.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
O número de dias era parecido. A forma de instalação, a estabilidade do conteúdo e a história anterior levaram a caminhos diferentes.
O diagnóstico de transtorno psicótico agudo e transitório depende de comparar o que a pessoa relatava num dia com o que relatava no seguinte, e de saber quando tudo começou. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.
O que acontece depois da remissão?
A remissão encerra o episódio, e o acompanhamento continua. Duas revisões ajudam a entender por quê.
Na meta-análise de Provenzani e colaboradores, de 2021, que reuniu 15.729 pessoas com diferentes definições de episódio psicótico breve, a recorrência de psicose em seguimentos de pelo menos 36 meses foi de 33%. Uma revisão de He e Wang, de 2026, com 14 estudos e 12.920 participantes com diagnóstico inicial de transtorno psicótico agudo e transitório, estimou estabilidade diagnóstica de 41%, com alta heterogeneidade entre os estudos.
Esses números descrevem grupos, com definições diferentes, e não permitem prever o curso de uma pessoa. Eles mostram que uma parte relevante dos diagnósticos muda com o tempo, muitas vezes para quadros do espectro da esquizofrenia ou do humor.
A recorrência, por si, não muda o diagnóstico. Uma pessoa pode ter mais de um episódio ao longo da vida, e, se cada um mantiver a configuração aguda, polimórfica e breve, o diagnóstico continua sendo o mesmo. A CID-11 registra essa diferença no código: 6A23.0 para o primeiro episódio e 6A23.1 para episódios múltiplos. O que muda o diagnóstico é a configuração: sintomas que se estabilizam, persistem ou vêm acompanhados de sintomas negativos.
Por isso, o registro de cada episódio precisa ser detalhado o suficiente para que outra pessoa, anos depois, consiga comparar. O raciocínio diagnóstico em saúde mental discute como manter uma hipótese aberta à revisão.
Diante de uma psicose de início recente, reconstruo primeiro a última data em que a pessoa estava comprovadamente como sempre. Sem esse ponto, é impossível dizer se a instalação foi abrupta.
Depois registro o conteúdo dos sintomas em dias diferentes, com exemplos concretos e comparáveis, porque é essa comparação que mostra a mudança rápida. “Quadro variável” diz pouco; “ontem falava de uma missão, hoje de uma ameaça, e surgiram vozes” diz muito.
Por fim, procuro ativamente sinais de pródromo e sintomas negativos. A ausência deles precisa ser verificada, e não presumida.
Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.
Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo
Como treinar o diferencial das psicoses de início recente
Na primeira semana de um quadro psicótico, a pressão por um nome é grande, e a graduação raramente ensina a diferença entre uma psicose aguda polimórfica e o início de uma esquizofrenia. Sem esse repertório, 6A23 vira sala de espera, e a pessoa recebe um diagnóstico que não descreve o que ela vive.
Na Formação em Psicopatologia, as psicoses são estudadas a partir da semiologia e das síndromes, com esquizofrenia, esquizoafetivo, transtorno psicótico agudo e transitório e os diferenciais com humor, substâncias e condições médicas, e casos clínicos para treinar a decisão. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.
É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é repertório para reconhecer a configuração certa quando o próximo quadro agudo chegar.
Perguntas frequentes
Toda psicose recente é um transtorno psicótico agudo e transitório?
Não. O diagnóstico exige início em até duas semanas sem pródromo, sintomas que mudam rapidamente, ausência de sintomas negativos e duração de até três meses. Um quadro recente com sintomas estáveis recebe outro diagnóstico.
Qual é a diferença para o transtorno psicótico breve do DSM?
O transtorno psicótico breve dura de um dia a menos de um mês, com retorno ao funcionamento anterior, e dispensa a mudança rápida dos sintomas. O 6A23 da CID-11 admite até três meses e exige o padrão polimórfico.
Quanto tempo dura o transtorno psicótico agudo e transitório?
Até três meses, na maioria das vezes de alguns dias a um mês. Se ultrapassar três meses, a hipótese precisa ser revista.
O transtorno psicótico agudo e transitório pode voltar?
Pode. Uma pessoa pode ter mais de um episódio, e o diagnóstico se mantém enquanto cada episódio seguir a mesma configuração. Por isso o seguimento continua depois da remissão.
Um evento estressante antes do episódio confirma o diagnóstico?
Não. O estresse costuma anteceder o quadro, mas o diagnóstico depende da configuração dos sintomas. Estresse pós-traumático e transtorno de adaptação também entram no diferencial.
É preciso esperar o diagnóstico para encaminhar?
Não. Um primeiro episódio psicótico pede avaliação especializada sem demora, e o diagnóstico se define durante o acompanhamento.
Referências
Ivo e Lia são personagens fictícios. As tabelas e as vinhetas foram elaboradas com finalidade didática.
- OMS. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders (CDDR), 2024.
- American Psychiatric Association. What is schizophrenia?
- NIMH. Understanding psychosis.
- NICE. Psychosis and schizophrenia in adults (CG178).
- NICE. Delirium (CG103).
- Provenzani U et al. Prognosis of brief psychotic episodes: a meta-analysis, 2021.
- He, Wang. Diagnostic stability of acute and transient psychotic disorder. Frontiers in Psychiatry, 2026.
- Ministério da Saúde. SAMU 192.
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