Semiologia psicopatológica: guia das funções psíquicas e do exame psíquico
Semiologia psicopatológica: sinais e sintomas, as funções psíquicas e suas alterações, o exame psíquico, o caminho até a síndrome e como registrar.

Neste artigo
- O que é semiologia psicopatológica?
- Por que avaliar antes de intervir?
- Forma e conteúdo
- Onde o exame psíquico entra na avaliação
- As funções psíquicas
- Consciência e atenção
- Orientação
- Sensopercepção
- Pensamento
- Juízo de realidade e crítica
- Afetividade e humor
- Memória
- Vontade e psicomotricidade
- Linguagem
- Vivência do tempo e do espaço
- Inteligência e personalidade: as funções compostas
- Do sinal à síndrome e ao diagnóstico
- Erros comuns no exame psíquico
- Como registrar: descrição antes de conclusão
- E no atendimento online?
- Um caso fictício: o exame que mudou a hipótese
- Como dominar a semiologia psicopatológica
- Perguntas frequentes
- Referências
Semiologia psicopatológica é o estudo dos sinais, que o profissional observa, e dos sintomas, que a pessoa relata, e do que eles indicam sobre o funcionamento mental. Ela se organiza pelas funções psíquicas: consciência, atenção, orientação, sensopercepção, memória, pensamento, juízo de realidade, linguagem, afetividade, vontade, psicomotricidade, vivência do tempo e do espaço, inteligência e personalidade. O exame psíquico registra o estado dessas funções, e as alterações encontradas levam às síndromes e às hipóteses diagnósticas.
Antes de qualquer hipótese sobre depressão, psicose, TDAH ou transtorno de personalidade, existe uma pergunta mais básica: o que, exatamente, está alterado no funcionamento mental desta pessoa? A semiologia é o método para responder a essa pergunta com precisão, e é a base comum a todas as abordagens teóricas.
Este guia percorre o método do começo ao fim: o que são sinais e sintomas, onde o exame psíquico entra na avaliação, o que observar em cada função, as alterações principais de cada uma e o caminho até a síndrome e o diagnóstico. O passo seguinte do raciocínio está no pilar de diagnóstico diferencial.
O que é semiologia psicopatológica?
Semiologia é a ciência dos signos: sinais que carregam significado e apontam para algo além deles mesmos. Aplicada à psicopatologia, ela estuda os sinais e os sintomas que indicam sofrimento mental ou transtorno, e o que cada um diz sobre o funcionamento da pessoa.
A distinção de base é simples. Sinais são os indicadores que o profissional observa: a postura, o ritmo da fala, a expressão do rosto, a forma como as ideias se encadeiam, a lentidão ou a agitação. Sintomas são as vivências que a pessoa relata: a tristeza, as vozes, o medo, a sensação de irrealidade. Um bom exame junta os dois, e dá atenção especial às discrepâncias entre eles.
O sintoma tem uma dupla natureza. Ele é índice, porque aponta para uma alteração, como a febre aponta para uma infecção. E é símbolo, porque recebe um nome e um significado que variam com o repertório de cada pessoa e de cada cultura. Uma mesma experiência pode ser descrita como “nervoso”, “ansiedade”, “espírito”, “mau-olhado” ou “fraqueza”, e a forma de nomear influencia o que a pessoa procura e o que aceita como tratamento. O tema aparece em delírio ou crença cultural.
A semiologia costuma ser descrita em duas partes, como faz Paulo Dalgalarrondo no livro que se tornou referência no Brasil: a semiotécnica, que reúne as técnicas para obter sinais e sintomas, como a entrevista, a observação e o exame; e a semiogênese, que investiga a origem, os mecanismos e o valor diagnóstico de cada um.
Por que avaliar antes de intervir?
Porque a intervenção depende do que está alterado. Uma queixa de “falta de concentração” pode ser distraibilidade, preocupação ansiosa, lentificação depressiva ou rebaixamento da consciência, e cada uma pede um cuidado diferente. Um “não consigo sair de casa” pode ser medo, apatia, ideia de perseguição ou exaustão.
Na prática clínica, é comum que a escuta inicial vire terapia sem uma etapa explícita de avaliação. A semiologia não exige um processo longo: mesmo numa consulta única, é possível perceber quais funções estão preservadas e quais apresentam alteração. Muitas pessoas não conseguem organizar a própria queixa, e parte do que está alterado só aparece para quem sabe o que observar.
A avaliação também protege. Alterações da consciência e da orientação, por exemplo, podem indicar uma condição médica aguda, como o delirium, que pede encaminhamento médico sem demora.
Forma e conteúdo
Uma das ideias mais úteis da psicopatologia clássica, sistematizada por Karl Jaspers, é a separação entre a forma de uma vivência e o seu conteúdo.
O conteúdo é o tema: perseguição, culpa, ciúme, doença, grandeza. A forma é o modo como a vivência se organiza: uma convicção inabalável, um pensamento intrusivo que a pessoa tenta afastar, uma percepção sem objeto, uma preocupação excessiva mas reconhecida como exagerada.
O conteúdo varia com a biografia e com a cultura. A forma é o que mais ajuda no diagnóstico. A ideia de ter contaminado alguém pode ser uma obsessão, quando a pessoa a reconhece como absurda e tenta neutralizá-la, ou um delírio, quando é vivida com certeza e sem crítica. O conteúdo é o mesmo; a forma decide. A comparação completa está em obsessão ou delírio.
Onde o exame psíquico entra na avaliação
A avaliação psicopatológica combina alguns instrumentos, que acontecem em paralelo:
- observação clínica, feita durante toda a entrevista: como a pessoa chega, se apresenta, fala, se move, reage;
- anamnese, a história dos sinais e sintomas, com a história pregressa, os antecedentes pessoais e familiares, o contexto social e o funcionamento antes do adoecimento;
- exame psíquico, também chamado de exame do estado mental: o registro do estado das funções psíquicas no momento da avaliação, a partir do que o entrevistador observa;
- informantes, como familiares, escola ou colegas de trabalho, que veem o que a pessoa às vezes não percebe ou não relata;
- avaliação complementar: escalas e inventários, testes psicológicos, que são de uso privativo da psicologia e precisam ter parecer favorável no SATEPSI, e exames físicos, laboratoriais e neurológicos, feitos pelos médicos.
A anamnese conta a história; o exame psíquico fotografa o presente. As duas informações se completam: um humor deprimido hoje significa uma coisa numa pessoa com dez anos de oscilações e outra numa pessoa que sempre foi estável. O eixo do tempo está em história longitudinal no diagnóstico.
O exame do estado mental tem estrutura parecida em diferentes tradições. Uma revisão de Norris e colegas, de 2016, descreve os componentes usados na clínica médica: aparência, comportamento, fala, humor e afeto, processo e conteúdo do pensamento, percepção, cognição, crítica e julgamento. A semiologia de tradição europeia, usada no Brasil, organiza os mesmos elementos pelas funções psíquicas. O roteiro prático, com perguntas para cada função, está em exame psíquico: roteiro passo a passo. A observação que começa antes da primeira pergunta está em apresentação e atitude no exame psíquico, e as adaptações para a infância, em exame psíquico na criança.
As funções psíquicas
Funções psíquicas são as capacidades do psiquismo de captar, organizar e responder à realidade. A divisão mais usada distingue as funções elementares das funções compostas.
Elementares: consciência, atenção, orientação, vivência do tempo e do espaço, sensopercepção, memória, afetividade, vontade, psicomotricidade, pensamento, juízo de realidade e linguagem.
Compostas: inteligência e personalidade, que integram várias das funções elementares ao mesmo tempo.
A divisão é didática. Na pessoa real, as funções se influenciam o tempo todo: a depressão lentifica o pensamento, a ansiedade captura a atenção, a mania acelera a fala e a psicomotricidade. O exame separa para enxergar melhor, e depois junta para compreender.
Mapa das funções psíquicas
| Função | O que observar ou perguntar | Alterações principais | Onde costumam aparecer |
|---|---|---|---|
| Consciência | Nível de alerta, clareza, resposta ao ambiente | Obnubilação, torpor, estados crepusculares, dissociação | Delirium, intoxicação, epilepsia, quadros dissociativos |
| Atenção | Fixar e sustentar o foco, mudar de foco | Distraibilidade, hipoprosexia, hipervigilância | TDAH, mania, depressão, ansiedade, trauma |
| Orientação | Tempo, lugar, pessoa, si mesmo | Desorientação temporal, espacial, autopsíquica | Delirium, demências, quadros graves |
| Sensopercepção | Percepções sem objeto, distorções | Ilusões, alucinações, pseudoalucinações | Psicoses, delirium, substâncias, luto, trauma |
| Memória | Fixação, evocação, lacunas | Amnésias, hipomnésia, confabulação | Demências, depressão, álcool, dissociação |
| Pensamento | Velocidade, encadeamento, temas | Fuga de ideias, lentificação, tangencialidade, desagregação, obsessões | Mania, depressão, psicoses, TOC |
| Juízo de realidade | Convicções, capacidade de revisar crenças | Delírios, ideias sobrevaloradas | Psicoses, mania e depressão graves |
| Linguagem | Fluência, coerência, forma da fala | Logorreia, mutismo, neologismos, afasias | Mania, psicoses, catatonia, lesões neurológicas |
| Afetividade | Humor de base, expressão do afeto, congruência | Hipotimia, euforia, disforia, labilidade, embotamento, incongruência | Transtornos do humor, psicoses, personalidade |
| Vontade | Iniciativa, decisão, controle de impulsos | Hipobulia, abulia, impulsividade, compulsões | Depressão, esquizofrenia, TOC, dependências |
| Psicomotricidade | Movimento, gestos, ritmo | Agitação, lentificação, estupor, catatonia | Mania, depressão, psicoses, delirium |
| Vivência do tempo e do espaço | Como a pessoa sente a passagem do tempo | Tempo arrastado, tempo acelerado, estranhamento do ambiente | Depressão, mania, despersonalização |
| Inteligência | Compreensão, raciocínio, adaptação | Deficiência intelectual, declínio cognitivo | Transtornos do desenvolvimento intelectual, demências |
| Personalidade | Padrão duradouro de ser e se relacionar | Traços desadaptativos, mudança em relação ao padrão prévio | Transtornos de personalidade, lesões e doenças neurológicas |
A coluna da direita indica associações frequentes, e cada alteração pode aparecer em outros quadros. O que sustenta uma hipótese é o conjunto.
Consciência e atenção
A consciência, no sentido semiológico, é o estado de lucidez e de alerta que permite perceber e responder ao ambiente. Suas alterações podem ser quantitativas, com rebaixamento em graus, da obnubilação, em que a pessoa fica lenta, perplexa e com dificuldade de compreender, ao torpor e ao coma; ou qualitativas, como os estados crepusculares e a dissociação, em que o campo da consciência se estreita ou se fragmenta. As formas qualitativas estão em alterações qualitativas da consciência.
Rebaixamento de consciência numa avaliação psicológica é sinal de alerta: pode indicar delirium, intoxicação ou outra condição médica aguda, e pede avaliação médica no mesmo dia. O aprofundamento, com os tipos de desorientação e as alterações da atenção, está em consciência, orientação e atenção.
A atenção é a capacidade de dirigir e sustentar a atividade mental. Duas qualidades orientam o exame: a tenacidade, que fixa a atenção num objeto, e a vigilância, que permite deslocá-la quando algo novo aparece. Na distraibilidade, típica do TDAH e da mania, a atenção salta de um estímulo a outro. Na hipoprosexia, comum na depressão e no cansaço, ela diminui de forma global. Na ansiedade, a vigilância aumenta e a atenção fica presa às ameaças. O diferencial está em TDAH ou ansiedade: o diagnóstico diferencial da desatenção. As alterações da atenção estão em hipoprosexia, hiperprosexia e distraibilidade e em tenacidade e vigilância.
Orientação
A orientação é a capacidade de situar-se no tempo, no espaço e em relação a si mesmo. A orientação alopsíquica diz respeito ao ambiente: que dia é hoje, onde estamos. A autopsíquica diz respeito à própria identidade: quem sou, qual é o meu papel.
A desorientação temporal costuma ser a primeira a aparecer nos quadros orgânicos, seguida da espacial. A desorientação quanto à própria identidade é rara e sugere quadros graves. Perguntas diretas e simples resolvem boa parte do exame: a data, o lugar, o motivo da consulta. O exame detalhado está em orientação autopsíquica e alopsíquica.
Sensopercepção
A sensopercepção integra a sensação e a interpretação do que chega pelos sentidos. Suas alterações podem ser quantitativas, com percepções mais ou menos intensas do que o habitual, ou qualitativas, as falsas percepções.
Na ilusão, um estímulo real é percebido de forma deformada: a sombra vira uma pessoa no escuro. Na alucinação, há percepção sem objeto, com as qualidades de uma percepção real. Na pseudoalucinação, a experiência é vivida no espaço interno, com menos nitidez ou com o reconhecimento de que não vem de fora. As duas tradições do termo estão em alucinação e pseudoalucinação.
Alucinações apontam para psicose com frequência, mas também aparecem no delirium, no uso e na abstinência de substâncias, no luto, no trauma e na transição entre sono e vigília. O exame investiga modalidade, conteúdo, frequência, crítica e o impacto no comportamento. Os tipos de alucinação, a alucinose, os sinais de causa orgânica e o modelo de registro estão em alterações da sensopercepção.
Pensamento
O pensamento é examinado em três planos.
Curso, a velocidade e o fluxo: acelerado na mania, com fuga de ideias; lentificado na depressão; interrompido nos bloqueios.
Forma, a organização das ideias: tangencialidade, quando a resposta se afasta da pergunta sem voltar a ela; circunstancialidade, quando se perde em detalhes mas chega ao ponto; desagregação, quando os nexos entre as ideias se rompem.
Conteúdo, os temas que ocupam a mente: preocupações, ideias de ruína ou de culpa, ideias de grandeza, obsessões, ideias sobrevaloradas e delírios.
A forma como alguém responde a perguntas abertas mostra muito do curso e da forma. O conteúdo aparece melhor quando se pergunta pelo que ocupa a cabeça nos últimos dias.
Juízo de realidade e crítica
O juízo de realidade é a capacidade de distinguir o que é real do que não é e de revisar as próprias crenças diante de evidências. Sua alteração central é o delírio. Os critérios clássicos, também sistematizados por Jaspers, são a convicção extraordinária, a impossibilidade de ser demovido por argumentos e o conteúdo impossível ou muito improvável.
A ideia sobrevalorada é uma crença intensa e carregada de afeto, que domina a vida da pessoa, mas que é compreensível dentro da sua história e da sua cultura. O limite entre crença cultural e delírio está em delírio ou crença cultural, e as psicoses no contexto de humor, em mania com sintomas psicóticos.
Ligada ao juízo está a crítica, ou insight: o quanto a pessoa reconhece que algo está diferente e que precisa de cuidado. Nos quadros mais graves, ela costuma estar comprometida, e isso muda a condução.
Afetividade e humor
A afetividade reúne as vivências afetivas. Duas distinções organizam o exame. O humor é o estado de base, mais duradouro, que colore as experiências por dias ou semanas. O afeto é a expressão momentânea da emoção, observável na entrevista.
As alterações principais incluem a hipotimia ou humor deprimido, a euforia, a disforia, com irritação e mal-estar, a labilidade, com mudanças rápidas, o embotamento, com redução da expressão emocional, a anedonia, com perda da capacidade de sentir prazer, e a paratimia, quando o afeto é incongruente com o conteúdo, como rir ao relatar uma perda.
O exame compara o humor relatado com o afeto observado, a intensidade com o contexto e a expressão com o conteúdo. A congruência entre o que a pessoa conta e o que ela mostra é uma das informações mais ricas da entrevista.
Memória
A memória é examinada na fixação, que registra o novo, e na evocação, que recupera o que foi guardado. As amnésias podem atingir o que aconteceu depois de um evento, o que aconteceu antes dele, ou períodos específicos. A confabulação preenche lacunas com relatos falsos, sem intenção de enganar, e sugere quadros orgânicos.
Queixas de memória são comuns na depressão e na ansiedade, em que a dificuldade está mais na atenção e na evocação do que no registro. Nos quadros demenciais, a fixação costuma falhar primeiro. Nos quadros dissociativos, há lacunas ligadas a períodos ou experiências específicas.
Vontade e psicomotricidade
A vontade é a capacidade de iniciar, sustentar e dirigir a ação. Na hipobulia e na abulia, a iniciativa diminui ou desaparece, como na depressão grave e em alguns quadros de esquizofrenia. Na impulsividade, a ação escapa ao controle. Nas compulsões, a pessoa age de forma repetitiva, muitas vezes contra a própria vontade, para aliviar a tensão.
A psicomotricidade é a expressão motora da atividade psíquica. A agitação acelera o movimento, como na mania e em quadros ansiosos intensos. A lentificação reduz o ritmo, como na depressão. O estupor e a catatonia reúnem imobilidade, mutismo e alterações posturais, e pedem avaliação médica com urgência.
Linguagem
A linguagem pode estar alterada por lesões neurológicas, como nas afasias e na disartria, ou por transtornos mentais. Entre as alterações de origem psíquica estão a logorreia, a fala excessiva e acelerada da mania; o mutismo; os neologismos, palavras criadas com sentido privado; a ecolalia, a repetição da fala do outro; e a fala desorganizada das psicoses.
A diferença entre uma alteração neurológica e uma psíquica muda o encaminhamento, e por isso a história do início, a presença de outros sinais neurológicos e a avaliação médica são essenciais quando a alteração é nova.
Vivência do tempo e do espaço
A forma como a pessoa sente a passagem do tempo muda em vários quadros. Na depressão, o tempo se arrasta, os dias parecem iguais e o futuro parece fechado. Na mania, o tempo parece curto para tudo o que há para fazer. Na despersonalização e na desrealização, o ambiente pode parecer estranho, distante ou irreal.
Perguntar “como tem passado o tempo para você?” costuma revelar o estado de humor com mais nitidez do que perguntas diretas sobre tristeza.
Inteligência e personalidade: as funções compostas
A inteligência é a capacidade global de compreender, raciocinar e se adaptar. No exame, ela aparece na compreensão das perguntas, no vocabulário, no raciocínio e na história escolar e profissional. A suspeita de deficiência intelectual ou de declínio cognitivo pede avaliação com instrumentos padronizados, aplicados por quem tem formação para isso.
A personalidade é o padrão duradouro de pensar, sentir e se relacionar. No exame, interessa o funcionamento anterior ao adoecimento, a personalidade pré-mórbida, e o quanto o quadro atual representa uma mudança em relação a ele. Um padrão presente desde o início da vida adulta aponta numa direção; uma mudança recente de personalidade aponta em outra, e pode indicar uma condição neurológica.
Do sinal à síndrome e ao diagnóstico
O exame psíquico produz uma lista de funções preservadas e alteradas. O passo seguinte é juntar as alterações que costumam aparecer juntas em síndromes: depressiva, maníaca, ansiosa, psicótica, psicomotora, orgânica. A síndrome ainda não é o diagnóstico, mas organiza as hipóteses. O caminho está em síndromes psicopatológicas.
Depois vêm o curso, a história, as causas possíveis e o diferencial, até chegar aos transtornos que melhor explicam o quadro, como descrevo em raciocínio diagnóstico em saúde mental e em leitura do caso em cinco camadas.
Erros comuns no exame psíquico
- Registrar rótulos em vez de descrições. “Paciente psicótico” diz menos do que “relata ouvir, há duas semanas, vozes masculinas que comentam suas ações, com convicção de que vêm dos vizinhos”.
- Confundir o relato com a observação. “Humor deprimido” relatado e “afeto hipomodulado” observado são informações diferentes, e as duas precisam aparecer.
- Examinar uma função isolada. Uma alucinação sem avaliar consciência e orientação pode levar a pensar em psicose quando o quadro é um delirium.
- Ignorar a cultura. Experiências religiosas, expressões idiomáticas e formas culturais de nomear o sofrimento precisam ser lidas no seu contexto.
- Tratar o exame como definitivo. O estado mental muda, e o exame precisa ser refeito ao longo do acompanhamento.
- Deixar uma característica marcante colorir o resto. O tema está em vieses cognitivos no diagnóstico.
Como registrar: descrição antes de conclusão
Um registro útil permite que outro profissional entenda o que foi observado sem ter estado na sala.
| Registro vago | Registro descritivo |
|---|---|
| “Ansiosa” | “Relata preocupação constante com a saúde dos filhos há quatro meses; na entrevista, mexe as mãos, fala rápido e pede confirmação várias vezes” |
| “Pensamento confuso” | “Respostas que se afastam da pergunta e não retornam a ela; associações frouxas entre as frases” |
| “Sem crítica” | “Afirma que não precisa de tratamento porque ‘os outros é que estão armando contra mim’” |
| “Humor bom” | “Refere humor ‘normal’; afeto ressonante, congruente com o conteúdo” |
A síntese do exame costuma ser feita numa súmula psicopatológica, que percorre as funções em ordem e termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica. Há um exame completo, função por função, em exemplo de exame psíquico.
E no atendimento online?
O exame psíquico por vídeo é possível e cada vez mais comum, com alguns limites. A postura, a marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis; o cuidado pessoal aparece só em parte; atrasos de conexão podem parecer latência de resposta. Por outro lado, o ambiente de casa pode mostrar rotinas, organização e condições de vida.
Na dúvida, vale perguntar mais, pedir que a pessoa ajuste a câmera, ouvir informantes e, quando o quadro exigir, combinar uma avaliação presencial ou médica.
Um caso fictício: o exame que mudou a hipótese
Seu Antônio é um personagem criado para este artigo.
Seu Antônio, 72 anos: “ele está deprimido”
A filha procura avaliação porque o pai, viúvo há um ano, “está deprimido”: dorme durante o dia, fica agitado à noite, não reconhece às vezes a própria casa e diz ter visto crianças na sala. Há duas semanas começou um novo medicamento para dormir.
No exame, seu Antônio oscila entre momentos de lucidez e momentos de sonolência e perplexidade, erra a data e o nome da cidade, perde o fio das perguntas e descreve as crianças com detalhes visuais. O humor, quando perguntado, é “normal”, e o afeto varia com o nível de alerta.
Leitura: a flutuação do nível de consciência, a desorientação, a desatenção e as alucinações visuais, de início recente e ligadas a uma mudança de medicação, compõem uma síndrome orgânica aguda sugestiva de delirium, e não de depressão. A conduta é encaminhamento médico imediato. O luto e o humor serão reavaliados depois que a consciência se normalizar.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
Um exame psíquico bem feito é refeito ao longo do acompanhamento, e as mudanças entre uma sessão e outra são parte do diagnóstico. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.
Começo pelo que observo antes de a pessoa dizer qualquer coisa: como ela chega, como se senta, como me olha, como responde às primeiras perguntas. Muito do exame acontece aí.
Depois, percorro as funções sem transformar a conversa num questionário. Nível de alerta e orientação vêm primeiro, porque mudam a leitura de tudo o que vem depois.
Sempre que possível, ouço também quem convive com a pessoa. Muitas alterações só aparecem no relato de quem vê a pessoa fora da sala.
Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.
Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo
Como dominar a semiologia psicopatológica
A semiologia é a base de todo diagnóstico em saúde mental, e ainda assim a graduação costuma ensiná-la de forma fragmentada, com as funções psíquicas numa disciplina e os transtornos em outra. O resultado é insegurança na hora de transformar uma entrevista num exame organizado.
Na Formação em Psicopatologia, as funções psíquicas e suas alterações são estudadas uma a uma, antes dos transtornos, e depois aplicadas em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR, do exame psíquico à síndrome e ao diagnóstico. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.
É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é método para examinar cada função com segurança no próximo atendimento.
Perguntas frequentes
O que é semiologia psicopatológica?
É o estudo dos sinais observados e dos sintomas relatados que indicam alterações do funcionamento mental, organizados pelas funções psíquicas.
Qual a diferença entre sinal e sintoma?
O sinal é observado pelo profissional, como a lentidão dos movimentos. O sintoma é relatado pela pessoa, como a tristeza ou a sensação de ouvir vozes.
Quais são as funções psíquicas?
As elementares são consciência, atenção, orientação, vivência do tempo e do espaço, sensopercepção, memória, afetividade, vontade, psicomotricidade, pensamento, juízo de realidade e linguagem. As compostas são a inteligência e a personalidade, que integram várias delas.
O que é o exame psíquico?
É o registro do estado das funções psíquicas no momento da avaliação, feito a partir da observação do entrevistador. Também é chamado de exame do estado mental.
Qual a diferença entre humor e afeto?
O humor é o estado de base, mais duradouro. O afeto é a expressão momentânea da emoção, observada na entrevista.
Psicólogos podem fazer exame psíquico?
Podem e devem. O exame psíquico é parte da avaliação psicológica e não depende de abordagem teórica.
Referências
Seu Antônio é um personagem fictício. As tabelas e as listas foram elaboradas com finalidade didática.
- Dalgalarrondo P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Jaspers K. Psicopatologia geral. Rio de Janeiro: Atheneu, edições diversas (original de 1913).
- Norris D, Clark MS, Shipley S. The mental status examination. American Family Physician, 2016.
- OMS. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders (CDDR), 2024.
- Conselho Federal de Psicologia. Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI).
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