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Semiologia psicopatológica: guia das funções psíquicas e do exame psíquico

Semiologia psicopatológica: sinais e sintomas, as funções psíquicas e suas alterações, o exame psíquico, o caminho até a síndrome e como registrar.

Numa clínica-escola, uma psicóloga entrevista um paciente enquanto dois estagiários observam de lado e fazem anotações.

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Neste artigo
  1. O que é semiologia psicopatológica?
  2. Por que avaliar antes de intervir?
  3. Forma e conteúdo
  4. Onde o exame psíquico entra na avaliação
  5. As funções psíquicas
  6. Consciência e atenção
  7. Orientação
  8. Sensopercepção
  9. Pensamento
  10. Juízo de realidade e crítica
  11. Afetividade e humor
  12. Memória
  13. Vontade e psicomotricidade
  14. Linguagem
  15. Vivência do tempo e do espaço
  16. Inteligência e personalidade: as funções compostas
  17. Do sinal à síndrome e ao diagnóstico
  18. Erros comuns no exame psíquico
  19. Como registrar: descrição antes de conclusão
  20. E no atendimento online?
  21. Um caso fictício: o exame que mudou a hipótese
  22. Como dominar a semiologia psicopatológica
  23. Perguntas frequentes
  24. Referências
Em resumo

Semiologia psicopatológica é o estudo dos sinais, que o profissional observa, e dos sintomas, que a pessoa relata, e do que eles indicam sobre o funcionamento mental. Ela se organiza pelas funções psíquicas: consciência, atenção, orientação, sensopercepção, memória, pensamento, juízo de realidade, linguagem, afetividade, vontade, psicomotricidade, vivência do tempo e do espaço, inteligência e personalidade. O exame psíquico registra o estado dessas funções, e as alterações encontradas levam às síndromes e às hipóteses diagnósticas.

Antes de qualquer hipótese sobre depressão, psicose, TDAH ou transtorno de personalidade, existe uma pergunta mais básica: o que, exatamente, está alterado no funcionamento mental desta pessoa? A semiologia é o método para responder a essa pergunta com precisão, e é a base comum a todas as abordagens teóricas.

Este guia percorre o método do começo ao fim: o que são sinais e sintomas, onde o exame psíquico entra na avaliação, o que observar em cada função, as alterações principais de cada uma e o caminho até a síndrome e o diagnóstico. O passo seguinte do raciocínio está no pilar de diagnóstico diferencial.

O que é semiologia psicopatológica?

Semiologia é a ciência dos signos: sinais que carregam significado e apontam para algo além deles mesmos. Aplicada à psicopatologia, ela estuda os sinais e os sintomas que indicam sofrimento mental ou transtorno, e o que cada um diz sobre o funcionamento da pessoa.

A distinção de base é simples. Sinais são os indicadores que o profissional observa: a postura, o ritmo da fala, a expressão do rosto, a forma como as ideias se encadeiam, a lentidão ou a agitação. Sintomas são as vivências que a pessoa relata: a tristeza, as vozes, o medo, a sensação de irrealidade. Um bom exame junta os dois, e dá atenção especial às discrepâncias entre eles.

O sintoma tem uma dupla natureza. Ele é índice, porque aponta para uma alteração, como a febre aponta para uma infecção. E é símbolo, porque recebe um nome e um significado que variam com o repertório de cada pessoa e de cada cultura. Uma mesma experiência pode ser descrita como “nervoso”, “ansiedade”, “espírito”, “mau-olhado” ou “fraqueza”, e a forma de nomear influencia o que a pessoa procura e o que aceita como tratamento. O tema aparece em delírio ou crença cultural.

A semiologia costuma ser descrita em duas partes, como faz Paulo Dalgalarrondo no livro que se tornou referência no Brasil: a semiotécnica, que reúne as técnicas para obter sinais e sintomas, como a entrevista, a observação e o exame; e a semiogênese, que investiga a origem, os mecanismos e o valor diagnóstico de cada um.

Por que avaliar antes de intervir?

Porque a intervenção depende do que está alterado. Uma queixa de “falta de concentração” pode ser distraibilidade, preocupação ansiosa, lentificação depressiva ou rebaixamento da consciência, e cada uma pede um cuidado diferente. Um “não consigo sair de casa” pode ser medo, apatia, ideia de perseguição ou exaustão.

Na prática clínica, é comum que a escuta inicial vire terapia sem uma etapa explícita de avaliação. A semiologia não exige um processo longo: mesmo numa consulta única, é possível perceber quais funções estão preservadas e quais apresentam alteração. Muitas pessoas não conseguem organizar a própria queixa, e parte do que está alterado só aparece para quem sabe o que observar.

A avaliação também protege. Alterações da consciência e da orientação, por exemplo, podem indicar uma condição médica aguda, como o delirium, que pede encaminhamento médico sem demora.

Forma e conteúdo

Uma das ideias mais úteis da psicopatologia clássica, sistematizada por Karl Jaspers, é a separação entre a forma de uma vivência e o seu conteúdo.

O conteúdo é o tema: perseguição, culpa, ciúme, doença, grandeza. A forma é o modo como a vivência se organiza: uma convicção inabalável, um pensamento intrusivo que a pessoa tenta afastar, uma percepção sem objeto, uma preocupação excessiva mas reconhecida como exagerada.

O conteúdo varia com a biografia e com a cultura. A forma é o que mais ajuda no diagnóstico. A ideia de ter contaminado alguém pode ser uma obsessão, quando a pessoa a reconhece como absurda e tenta neutralizá-la, ou um delírio, quando é vivida com certeza e sem crítica. O conteúdo é o mesmo; a forma decide. A comparação completa está em obsessão ou delírio.

Onde o exame psíquico entra na avaliação

A avaliação psicopatológica combina alguns instrumentos, que acontecem em paralelo:

  • observação clínica, feita durante toda a entrevista: como a pessoa chega, se apresenta, fala, se move, reage;
  • anamnese, a história dos sinais e sintomas, com a história pregressa, os antecedentes pessoais e familiares, o contexto social e o funcionamento antes do adoecimento;
  • exame psíquico, também chamado de exame do estado mental: o registro do estado das funções psíquicas no momento da avaliação, a partir do que o entrevistador observa;
  • informantes, como familiares, escola ou colegas de trabalho, que veem o que a pessoa às vezes não percebe ou não relata;
  • avaliação complementar: escalas e inventários, testes psicológicos, que são de uso privativo da psicologia e precisam ter parecer favorável no SATEPSI, e exames físicos, laboratoriais e neurológicos, feitos pelos médicos.

A anamnese conta a história; o exame psíquico fotografa o presente. As duas informações se completam: um humor deprimido hoje significa uma coisa numa pessoa com dez anos de oscilações e outra numa pessoa que sempre foi estável. O eixo do tempo está em história longitudinal no diagnóstico.

O exame do estado mental tem estrutura parecida em diferentes tradições. Uma revisão de Norris e colegas, de 2016, descreve os componentes usados na clínica médica: aparência, comportamento, fala, humor e afeto, processo e conteúdo do pensamento, percepção, cognição, crítica e julgamento. A semiologia de tradição europeia, usada no Brasil, organiza os mesmos elementos pelas funções psíquicas. O roteiro prático, com perguntas para cada função, está em exame psíquico: roteiro passo a passo. A observação que começa antes da primeira pergunta está em apresentação e atitude no exame psíquico, e as adaptações para a infância, em exame psíquico na criança.

As funções psíquicas

Funções psíquicas são as capacidades do psiquismo de captar, organizar e responder à realidade. A divisão mais usada distingue as funções elementares das funções compostas.

Elementares: consciência, atenção, orientação, vivência do tempo e do espaço, sensopercepção, memória, afetividade, vontade, psicomotricidade, pensamento, juízo de realidade e linguagem.

Compostas: inteligência e personalidade, que integram várias das funções elementares ao mesmo tempo.

A divisão é didática. Na pessoa real, as funções se influenciam o tempo todo: a depressão lentifica o pensamento, a ansiedade captura a atenção, a mania acelera a fala e a psicomotricidade. O exame separa para enxergar melhor, e depois junta para compreender.

Leitura em cinco camadas

Mapa das funções psíquicas

FunçãoO que observar ou perguntarAlterações principaisOnde costumam aparecer
ConsciênciaNível de alerta, clareza, resposta ao ambienteObnubilação, torpor, estados crepusculares, dissociaçãoDelirium, intoxicação, epilepsia, quadros dissociativos
AtençãoFixar e sustentar o foco, mudar de focoDistraibilidade, hipoprosexia, hipervigilânciaTDAH, mania, depressão, ansiedade, trauma
OrientaçãoTempo, lugar, pessoa, si mesmoDesorientação temporal, espacial, autopsíquicaDelirium, demências, quadros graves
SensopercepçãoPercepções sem objeto, distorçõesIlusões, alucinações, pseudoalucinaçõesPsicoses, delirium, substâncias, luto, trauma
MemóriaFixação, evocação, lacunasAmnésias, hipomnésia, confabulaçãoDemências, depressão, álcool, dissociação
PensamentoVelocidade, encadeamento, temasFuga de ideias, lentificação, tangencialidade, desagregação, obsessõesMania, depressão, psicoses, TOC
Juízo de realidadeConvicções, capacidade de revisar crençasDelírios, ideias sobrevaloradasPsicoses, mania e depressão graves
LinguagemFluência, coerência, forma da falaLogorreia, mutismo, neologismos, afasiasMania, psicoses, catatonia, lesões neurológicas
AfetividadeHumor de base, expressão do afeto, congruênciaHipotimia, euforia, disforia, labilidade, embotamento, incongruênciaTranstornos do humor, psicoses, personalidade
VontadeIniciativa, decisão, controle de impulsosHipobulia, abulia, impulsividade, compulsõesDepressão, esquizofrenia, TOC, dependências
PsicomotricidadeMovimento, gestos, ritmoAgitação, lentificação, estupor, catatoniaMania, depressão, psicoses, delirium
Vivência do tempo e do espaçoComo a pessoa sente a passagem do tempoTempo arrastado, tempo acelerado, estranhamento do ambienteDepressão, mania, despersonalização
InteligênciaCompreensão, raciocínio, adaptaçãoDeficiência intelectual, declínio cognitivoTranstornos do desenvolvimento intelectual, demências
PersonalidadePadrão duradouro de ser e se relacionarTraços desadaptativos, mudança em relação ao padrão prévioTranstornos de personalidade, lesões e doenças neurológicas

A coluna da direita indica associações frequentes, e cada alteração pode aparecer em outros quadros. O que sustenta uma hipótese é o conjunto.

Consciência e atenção

A consciência, no sentido semiológico, é o estado de lucidez e de alerta que permite perceber e responder ao ambiente. Suas alterações podem ser quantitativas, com rebaixamento em graus, da obnubilação, em que a pessoa fica lenta, perplexa e com dificuldade de compreender, ao torpor e ao coma; ou qualitativas, como os estados crepusculares e a dissociação, em que o campo da consciência se estreita ou se fragmenta. As formas qualitativas estão em alterações qualitativas da consciência.

Rebaixamento de consciência numa avaliação psicológica é sinal de alerta: pode indicar delirium, intoxicação ou outra condição médica aguda, e pede avaliação médica no mesmo dia. O aprofundamento, com os tipos de desorientação e as alterações da atenção, está em consciência, orientação e atenção.

A atenção é a capacidade de dirigir e sustentar a atividade mental. Duas qualidades orientam o exame: a tenacidade, que fixa a atenção num objeto, e a vigilância, que permite deslocá-la quando algo novo aparece. Na distraibilidade, típica do TDAH e da mania, a atenção salta de um estímulo a outro. Na hipoprosexia, comum na depressão e no cansaço, ela diminui de forma global. Na ansiedade, a vigilância aumenta e a atenção fica presa às ameaças. O diferencial está em TDAH ou ansiedade: o diagnóstico diferencial da desatenção. As alterações da atenção estão em hipoprosexia, hiperprosexia e distraibilidade e em tenacidade e vigilância.

Orientação

A orientação é a capacidade de situar-se no tempo, no espaço e em relação a si mesmo. A orientação alopsíquica diz respeito ao ambiente: que dia é hoje, onde estamos. A autopsíquica diz respeito à própria identidade: quem sou, qual é o meu papel.

A desorientação temporal costuma ser a primeira a aparecer nos quadros orgânicos, seguida da espacial. A desorientação quanto à própria identidade é rara e sugere quadros graves. Perguntas diretas e simples resolvem boa parte do exame: a data, o lugar, o motivo da consulta. O exame detalhado está em orientação autopsíquica e alopsíquica.

Sensopercepção

A sensopercepção integra a sensação e a interpretação do que chega pelos sentidos. Suas alterações podem ser quantitativas, com percepções mais ou menos intensas do que o habitual, ou qualitativas, as falsas percepções.

Na ilusão, um estímulo real é percebido de forma deformada: a sombra vira uma pessoa no escuro. Na alucinação, há percepção sem objeto, com as qualidades de uma percepção real. Na pseudoalucinação, a experiência é vivida no espaço interno, com menos nitidez ou com o reconhecimento de que não vem de fora. As duas tradições do termo estão em alucinação e pseudoalucinação.

Alucinações apontam para psicose com frequência, mas também aparecem no delirium, no uso e na abstinência de substâncias, no luto, no trauma e na transição entre sono e vigília. O exame investiga modalidade, conteúdo, frequência, crítica e o impacto no comportamento. Os tipos de alucinação, a alucinose, os sinais de causa orgânica e o modelo de registro estão em alterações da sensopercepção.

Pensamento

O pensamento é examinado em três planos.

Curso, a velocidade e o fluxo: acelerado na mania, com fuga de ideias; lentificado na depressão; interrompido nos bloqueios.

Forma, a organização das ideias: tangencialidade, quando a resposta se afasta da pergunta sem voltar a ela; circunstancialidade, quando se perde em detalhes mas chega ao ponto; desagregação, quando os nexos entre as ideias se rompem.

Conteúdo, os temas que ocupam a mente: preocupações, ideias de ruína ou de culpa, ideias de grandeza, obsessões, ideias sobrevaloradas e delírios.

A forma como alguém responde a perguntas abertas mostra muito do curso e da forma. O conteúdo aparece melhor quando se pergunta pelo que ocupa a cabeça nos últimos dias.

Juízo de realidade e crítica

O juízo de realidade é a capacidade de distinguir o que é real do que não é e de revisar as próprias crenças diante de evidências. Sua alteração central é o delírio. Os critérios clássicos, também sistematizados por Jaspers, são a convicção extraordinária, a impossibilidade de ser demovido por argumentos e o conteúdo impossível ou muito improvável.

A ideia sobrevalorada é uma crença intensa e carregada de afeto, que domina a vida da pessoa, mas que é compreensível dentro da sua história e da sua cultura. O limite entre crença cultural e delírio está em delírio ou crença cultural, e as psicoses no contexto de humor, em mania com sintomas psicóticos.

Ligada ao juízo está a crítica, ou insight: o quanto a pessoa reconhece que algo está diferente e que precisa de cuidado. Nos quadros mais graves, ela costuma estar comprometida, e isso muda a condução.

Afetividade e humor

A afetividade reúne as vivências afetivas. Duas distinções organizam o exame. O humor é o estado de base, mais duradouro, que colore as experiências por dias ou semanas. O afeto é a expressão momentânea da emoção, observável na entrevista.

As alterações principais incluem a hipotimia ou humor deprimido, a euforia, a disforia, com irritação e mal-estar, a labilidade, com mudanças rápidas, o embotamento, com redução da expressão emocional, a anedonia, com perda da capacidade de sentir prazer, e a paratimia, quando o afeto é incongruente com o conteúdo, como rir ao relatar uma perda.

O exame compara o humor relatado com o afeto observado, a intensidade com o contexto e a expressão com o conteúdo. A congruência entre o que a pessoa conta e o que ela mostra é uma das informações mais ricas da entrevista.

Memória

A memória é examinada na fixação, que registra o novo, e na evocação, que recupera o que foi guardado. As amnésias podem atingir o que aconteceu depois de um evento, o que aconteceu antes dele, ou períodos específicos. A confabulação preenche lacunas com relatos falsos, sem intenção de enganar, e sugere quadros orgânicos.

Queixas de memória são comuns na depressão e na ansiedade, em que a dificuldade está mais na atenção e na evocação do que no registro. Nos quadros demenciais, a fixação costuma falhar primeiro. Nos quadros dissociativos, há lacunas ligadas a períodos ou experiências específicas.

Vontade e psicomotricidade

A vontade é a capacidade de iniciar, sustentar e dirigir a ação. Na hipobulia e na abulia, a iniciativa diminui ou desaparece, como na depressão grave e em alguns quadros de esquizofrenia. Na impulsividade, a ação escapa ao controle. Nas compulsões, a pessoa age de forma repetitiva, muitas vezes contra a própria vontade, para aliviar a tensão.

A psicomotricidade é a expressão motora da atividade psíquica. A agitação acelera o movimento, como na mania e em quadros ansiosos intensos. A lentificação reduz o ritmo, como na depressão. O estupor e a catatonia reúnem imobilidade, mutismo e alterações posturais, e pedem avaliação médica com urgência.

Linguagem

A linguagem pode estar alterada por lesões neurológicas, como nas afasias e na disartria, ou por transtornos mentais. Entre as alterações de origem psíquica estão a logorreia, a fala excessiva e acelerada da mania; o mutismo; os neologismos, palavras criadas com sentido privado; a ecolalia, a repetição da fala do outro; e a fala desorganizada das psicoses.

A diferença entre uma alteração neurológica e uma psíquica muda o encaminhamento, e por isso a história do início, a presença de outros sinais neurológicos e a avaliação médica são essenciais quando a alteração é nova.

Vivência do tempo e do espaço

A forma como a pessoa sente a passagem do tempo muda em vários quadros. Na depressão, o tempo se arrasta, os dias parecem iguais e o futuro parece fechado. Na mania, o tempo parece curto para tudo o que há para fazer. Na despersonalização e na desrealização, o ambiente pode parecer estranho, distante ou irreal.

Perguntar “como tem passado o tempo para você?” costuma revelar o estado de humor com mais nitidez do que perguntas diretas sobre tristeza.

Inteligência e personalidade: as funções compostas

A inteligência é a capacidade global de compreender, raciocinar e se adaptar. No exame, ela aparece na compreensão das perguntas, no vocabulário, no raciocínio e na história escolar e profissional. A suspeita de deficiência intelectual ou de declínio cognitivo pede avaliação com instrumentos padronizados, aplicados por quem tem formação para isso.

A personalidade é o padrão duradouro de pensar, sentir e se relacionar. No exame, interessa o funcionamento anterior ao adoecimento, a personalidade pré-mórbida, e o quanto o quadro atual representa uma mudança em relação a ele. Um padrão presente desde o início da vida adulta aponta numa direção; uma mudança recente de personalidade aponta em outra, e pode indicar uma condição neurológica.

Do sinal à síndrome e ao diagnóstico

O exame psíquico produz uma lista de funções preservadas e alteradas. O passo seguinte é juntar as alterações que costumam aparecer juntas em síndromes: depressiva, maníaca, ansiosa, psicótica, psicomotora, orgânica. A síndrome ainda não é o diagnóstico, mas organiza as hipóteses. O caminho está em síndromes psicopatológicas.

Depois vêm o curso, a história, as causas possíveis e o diferencial, até chegar aos transtornos que melhor explicam o quadro, como descrevo em raciocínio diagnóstico em saúde mental e em leitura do caso em cinco camadas.

Erros comuns no exame psíquico

  • Registrar rótulos em vez de descrições. “Paciente psicótico” diz menos do que “relata ouvir, há duas semanas, vozes masculinas que comentam suas ações, com convicção de que vêm dos vizinhos”.
  • Confundir o relato com a observação. “Humor deprimido” relatado e “afeto hipomodulado” observado são informações diferentes, e as duas precisam aparecer.
  • Examinar uma função isolada. Uma alucinação sem avaliar consciência e orientação pode levar a pensar em psicose quando o quadro é um delirium.
  • Ignorar a cultura. Experiências religiosas, expressões idiomáticas e formas culturais de nomear o sofrimento precisam ser lidas no seu contexto.
  • Tratar o exame como definitivo. O estado mental muda, e o exame precisa ser refeito ao longo do acompanhamento.
  • Deixar uma característica marcante colorir o resto. O tema está em vieses cognitivos no diagnóstico.

Como registrar: descrição antes de conclusão

Um registro útil permite que outro profissional entenda o que foi observado sem ter estado na sala.

Registro vagoRegistro descritivo
“Ansiosa”“Relata preocupação constante com a saúde dos filhos há quatro meses; na entrevista, mexe as mãos, fala rápido e pede confirmação várias vezes”
“Pensamento confuso”“Respostas que se afastam da pergunta e não retornam a ela; associações frouxas entre as frases”
“Sem crítica”“Afirma que não precisa de tratamento porque ‘os outros é que estão armando contra mim’”
“Humor bom”“Refere humor ‘normal’; afeto ressonante, congruente com o conteúdo”

A síntese do exame costuma ser feita numa súmula psicopatológica, que percorre as funções em ordem e termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica. Há um exame completo, função por função, em exemplo de exame psíquico.

E no atendimento online?

O exame psíquico por vídeo é possível e cada vez mais comum, com alguns limites. A postura, a marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis; o cuidado pessoal aparece só em parte; atrasos de conexão podem parecer latência de resposta. Por outro lado, o ambiente de casa pode mostrar rotinas, organização e condições de vida.

Na dúvida, vale perguntar mais, pedir que a pessoa ajuste a câmera, ouvir informantes e, quando o quadro exigir, combinar uma avaliação presencial ou médica.

Um caso fictício: o exame que mudou a hipótese

Seu Antônio é um personagem criado para este artigo.

Caso fictício

Seu Antônio, 72 anos: “ele está deprimido”

A filha procura avaliação porque o pai, viúvo há um ano, “está deprimido”: dorme durante o dia, fica agitado à noite, não reconhece às vezes a própria casa e diz ter visto crianças na sala. Há duas semanas começou um novo medicamento para dormir.

No exame, seu Antônio oscila entre momentos de lucidez e momentos de sonolência e perplexidade, erra a data e o nome da cidade, perde o fio das perguntas e descreve as crianças com detalhes visuais. O humor, quando perguntado, é “normal”, e o afeto varia com o nível de alerta.

Leitura: a flutuação do nível de consciência, a desorientação, a desatenção e as alucinações visuais, de início recente e ligadas a uma mudança de medicação, compõem uma síndrome orgânica aguda sugestiva de delirium, e não de depressão. A conduta é encaminhamento médico imediato. O luto e o humor serão reavaliados depois que a consciência se normalizar.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

Um exame psíquico bem feito é refeito ao longo do acompanhamento, e as mudanças entre uma sessão e outra são parte do diagnóstico. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.

Na prática clínica

Começo pelo que observo antes de a pessoa dizer qualquer coisa: como ela chega, como se senta, como me olha, como responde às primeiras perguntas. Muito do exame acontece aí.

Depois, percorro as funções sem transformar a conversa num questionário. Nível de alerta e orientação vêm primeiro, porque mudam a leitura de tudo o que vem depois.

Sempre que possível, ouço também quem convive com a pessoa. Muitas alterações só aparecem no relato de quem vê a pessoa fora da sala.

Para pacientes e famílias

Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.

Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo

Como dominar a semiologia psicopatológica

A semiologia é a base de todo diagnóstico em saúde mental, e ainda assim a graduação costuma ensiná-la de forma fragmentada, com as funções psíquicas numa disciplina e os transtornos em outra. O resultado é insegurança na hora de transformar uma entrevista num exame organizado.

Na Formação em Psicopatologia, as funções psíquicas e suas alterações são estudadas uma a uma, antes dos transtornos, e depois aplicadas em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR, do exame psíquico à síndrome e ao diagnóstico. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.

É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é método para examinar cada função com segurança no próximo atendimento.

Perguntas frequentes

O que é semiologia psicopatológica?

É o estudo dos sinais observados e dos sintomas relatados que indicam alterações do funcionamento mental, organizados pelas funções psíquicas.

Qual a diferença entre sinal e sintoma?

O sinal é observado pelo profissional, como a lentidão dos movimentos. O sintoma é relatado pela pessoa, como a tristeza ou a sensação de ouvir vozes.

Quais são as funções psíquicas?

As elementares são consciência, atenção, orientação, vivência do tempo e do espaço, sensopercepção, memória, afetividade, vontade, psicomotricidade, pensamento, juízo de realidade e linguagem. As compostas são a inteligência e a personalidade, que integram várias delas.

O que é o exame psíquico?

É o registro do estado das funções psíquicas no momento da avaliação, feito a partir da observação do entrevistador. Também é chamado de exame do estado mental.

Qual a diferença entre humor e afeto?

O humor é o estado de base, mais duradouro. O afeto é a expressão momentânea da emoção, observada na entrevista.

Psicólogos podem fazer exame psíquico?

Podem e devem. O exame psíquico é parte da avaliação psicológica e não depende de abordagem teórica.

Referências

Seu Antônio é um personagem fictício. As tabelas e as listas foram elaboradas com finalidade didática.

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