Pular para o conteúdo

Alterações da sensopercepção: ilusões, alucinações e pseudoalucinações

Alterações da sensopercepção: hiperestesia, ilusão, tipos de alucinação, alucinose e pseudoalucinação, sinais de causa orgânica, exame e registro.

Na sessão, um homem vira a cabeça para um canto vazio da sala e leva a mão ao ouvido; a psicóloga o observa com calma, de caneta parada.

Compartilhar

Neste artigo
  1. O que é sensopercepção?
  2. Alterações quantitativas: hiperestesia e hipoestesia
  3. Quais são as falsas percepções?
  4. Ilusão: quando o objeto existe
  5. Alucinação: percepção sem objeto
  6. Quais são os tipos de alucinação?
  7. Alucinação funcional, combinada, extracampina e autoscópica
  8. Alucinose e pseudoalucinação: onde entram a crítica e o espaço
  9. Despersonalização e desrealização
  10. Ouvir vozes é sempre psicose?
  11. Quando pensar em causa orgânica?
  12. Como examinar a sensopercepção na entrevista
  13. Como registrar no exame psíquico
  14. Um caso fictício: as crianças na sala
  15. Como examinar a sensopercepção com segurança
  16. Perguntas frequentes
  17. Referências
Em resumo

Sensopercepção é a função que transforma estímulos em experiência consciente. Suas alterações são quantitativas, como a hiperestesia e a hipoestesia, ou qualitativas, as falsas percepções. Na ilusão, um objeto real é percebido deformado; na alucinação, há percepção sem objeto; na alucinose, a pessoa reconhece a alucinação como estranha; na pseudoalucinação, a experiência acontece no espaço interno. Alucinações visuais, olfativas ou de início agudo pedem, antes de tudo, investigação médica.

“Ouço alguém me chamar quando o ventilador está ligado.” A frase cabe numa ilusão auditiva, numa alucinação funcional, numa experiência do adormecer ou numa psicose em curso. Cada leitura leva a uma hipótese e a uma conduta diferentes, e a escolha depende de perguntas que o profissional faz, ou esquece de fazer, na entrevista.

As funções psíquicas estão mapeadas no pilar de semiologia psicopatológica, e o roteiro completo, em exame psíquico. Aqui, o assunto é a sensopercepção e as falsas percepções.

O que é sensopercepção?

Sensopercepção é a integração de dois processos. A sensação é a chegada do estímulo externo aos receptores: a luz na retina, a onda sonora no ouvido, a molécula de odor no nariz. A percepção é o processo neurológico e cognitivo que torna esse estímulo consciente e lhe dá sentido: aquilo é um rosto conhecido, aquele som é o próprio nome.

A distinção tem valor clínico. Uma pessoa com catarata tem a sensação prejudicada e percebe mal por isso. Quem ouve vozes numa sala silenciosa tem os ouvidos intactos: a alteração está na percepção, que é uma função psíquica.

Por isso as falsas percepções são estudadas como alterações do psiquismo. O exame dos órgãos dos sentidos, que cabe ao médico, entra quando há dúvida sobre a própria sensação.

Alterações quantitativas: hiperestesia e hipoestesia

Nas alterações quantitativas, o objeto existe e é reconhecido, mas a intensidade da experiência muda.

Na hiperestesia, as percepções ficam mais intensas ou mais nítidas do que o habitual. Sons comuns incomodam, cores parecem vivas demais, cheiros invadem o ambiente. Aparece na intoxicação por alucinógenos, na mania, na enxaqueca, em algumas epilepsias e em fases da esquizofrenia.

Na hipoestesia, o mundo perde intensidade. Algumas pessoas deprimidas descrevem as cores como apagadas, a comida como sem gosto e os cheiros como distantes.

Vale anotar essas descrições com as palavras do paciente. Elas ajudam a dimensionar a profundidade do quadro depressivo e, mais tarde, a reconhecer a melhora: a pessoa que volta a sentir o gosto do café costuma estar saindo do fundo do poço.

Quais são as falsas percepções?

As alterações qualitativas são as falsas percepções. São quatro, e duas perguntas as separam: existe um objeto real? A pessoa reconhece que a experiência é estranha?

Leitura em cinco camadas

As quatro falsas percepções

FenômenoObjeto real presenteOnde é vividaCríticaExemplo
IlusãoSim, percebido de forma deformadaNo espaço externoCostuma se corrigir com a atençãoO casaco no cabide vira um vulto no escuro
AlucinaçãoNenhumNo espaço externo, com nitidez de percepção realEm geral ausenteVozes que comentam os atos da pessoa numa sala vazia
AlucinoseNenhumNo espaço externoPresente: a pessoa sabe que a experiência é patológicaDurante uma intoxicação, vê figuras na parede e sabe que é efeito da substância
PseudoalucinaçãoNenhumNo espaço interno, dentro da cabeça ou do corpoVariávelUma voz ouvida “por dentro”, distinta do próprio pensamento

A crítica pode oscilar no mesmo paciente ao longo dos dias, e a tabela descreve o padrão típico de cada fenômeno.

Ilusão: quando o objeto existe

Na ilusão, há um estímulo real e presente, e a percepção o deforma. As visuais são as mais comuns: móveis, roupas e objetos pendurados viram pessoas, animais ou vultos. As auditivas também são frequentes. O assobio do vento vira alguém chamando o nome da pessoa, e muitas vezes o chamado vem com palavras depreciativas.

Ilusões surgem quando o estado da pessoa está alterado por medo, cansaço, febre, rebaixamento da consciência ou um afeto intenso. Quem acabou de ver um filme de terror e enxerga um vulto no quarto escuro teve uma ilusão; basta acender a luz para o casaco voltar a ser casaco.

Esse é o traço que separa a ilusão comum da patológica. Na comum, a atenção corrige a percepção. Na patológica, a deformação persiste ou ganha um sentido pessoal: o ruído do ventilador passa a dizer insultos, todas as noites.

Na esquizofrenia, as ilusões auditivas são comuns e costumam ser registradas como alucinações. A diferença importa para descrever o quadro com fidelidade: ouvir insultos no ruído do ventilador é outro fenômeno que ouvir insultos no silêncio.

A pareidolia, como ver rostos em nuvens ou em manchas na parede, é uma ilusão da percepção normal. A pessoa sabe que é uma nuvem e continua vendo o rosto.

Alucinação: percepção sem objeto

Alucinação é a percepção clara e definida de um objeto sem que ele esteja presente. A CID-11 a descreve como percepção sensorial de qualquer modalidade na ausência do estímulo externo apropriado, com ou sem crítica sobre sua irrealidade, e a codifica em MB27.2, com subcódigos para cada modalidade.

Para quem vive a experiência, a alucinação tem as qualidades de uma percepção real. É nítida, está localizada no espaço externo, independe da vontade e costuma vir acompanhada da convicção de que é verdadeira. A pessoa que ouve uma voz vinda do corredor procura quem está falando.

Essa convicção é o que a diferencia da imaginação vívida, que a pessoa produz e controla.

Quais são os tipos de alucinação?

Os tipos seguem os sentidos, com algumas formas especiais. A modalidade é uma das pistas mais úteis para a hipótese de causa.

Leitura em cinco camadas

Tipos de alucinação e por onde começar a investigar

TipoComo apareceOnde pensar primeiro
Auditiva simplesRuídos, estalos, zumbidosDoenças do ouvido, epilepsia do lobo temporal, substâncias
AudioverbalVozes que comentam, dialogam, insultam ou dão ordens; o pensamento ouvido em voz alta (sonorização), repetido (eco) ou divulgado aos outros (publicação)Esquizofrenia e outras psicoses; depressão e mania com sintomas psicóticos
MusicalMelodias ou canções nítidasRara; mais descrita em idosos com perda auditiva
Visual simplesClarões, pontos luminosos, linhas (fotopsias)Enxaqueca com aura, epilepsia occipital, doenças oculares
Visual complexaPessoas, animais, cenasDelirium, substâncias, demência com corpos de Lewy, perda visual
TátilInsetos na pele, choques, toques; às vezes de conteúdo sexualDelirium, abstinência de álcool, cocaína; psicoses, muitas vezes entrelaçada ao delírio
Olfativa e gustativaCheiro de queimado ou de podre, gosto de veneno na comidaEpilepsia do lobo temporal, lesões cerebrais; psicoses
CenestésicaSensações impossíveis nos órgãos: o cérebro encolhendo, o fígado se despedaçando, um animal no abdomeEsquizofrenia; depressão psicótica grave
CinestésicaMovimento que não acontece: o corpo afundando, o braço levantandoPsicoses
Hipnagógica e hipnopômpicaImagens, vozes ou presenças ao adormecer ou ao despertarFrequente na população geral; privação de sono, narcolepsia

A coluna da direita indica por onde começar, e cada hipótese se confirma pelo conjunto do exame.

A audioverbal é a mais frequente na clínica e a mais associada à esquizofrenia. Vozes que comentam a conduta da pessoa em terceira pessoa, ou que conversam entre si sobre ela, pesam mais para a hipótese de psicose do que um chamado isolado do próprio nome.

As cenestésicas e as cinestésicas costumam ser confundidas pelo nome. A cenestésica diz respeito à sensibilidade das vísceras e dos órgãos; a cinestésica, ao movimento. Nas duas, o observador vê que nada daquilo acontece, e a pessoa vive a experiência como real.

As hipnagógicas, ao adormecer, e as hipnopômpicas, ao despertar, são as mais comuns de todas. Num estudo com 4.972 pessoas da população geral do Reino Unido, 37% relataram alucinações hipnagógicas e 12,5%, hipnopômpicas, com frequência maior entre quem tinha insônia, sonolência diurna ou transtorno mental. A sensação de uma presença no quarto ao acordar, como experiência isolada, raramente indica psicose.

Alucinação funcional, combinada, extracampina e autoscópica

Quatro formas especiais aparecem nos livros de semiologia e confundem na prática.

Na alucinação funcional, um estímulo real dispara a alucinação, mas o conteúdo alucinado é outro. A pessoa ouve vozes quando o chuveiro está aberto; o chuveiro fecha, as vozes param.

A diferença para a ilusão é sutil, e a própria CID-11 usa o ruído de água corrente como exemplo de ilusão. A pergunta que decide é esta: a pessoa ouve a água e as vozes, ao mesmo tempo, ou o ruído da água se transforma em vozes? No primeiro caso, duas percepções coexistem, e a segunda é alucinatória. No segundo, um único estímulo é percebido deformado, e trata-se de ilusão.

Na alucinação combinada, várias modalidades se juntam na mesma experiência. A pessoa vê alguém que fala com ela e sente o toque dessa figura. Alguns autores a chamam de sinestésica, termo que vale evitar, porque se confunde com cinestésica e com a sinestesia da percepção normal.

Na alucinação extracampina, a pessoa vê algo fora do seu campo visual: atrás de si, através de uma parede, acima da cabeça sem erguer os olhos. É rara e sugere psicose.

Na alucinação autoscópica, a pessoa se vê fora do próprio corpo, como um duplo, muitas vezes com sensações de toque e de movimento associadas.

Alucinose e pseudoalucinação: onde entram a crítica e o espaço

Na alucinose, a experiência tem as características de uma alucinação, com consciência e crítica preservadas. A pessoa percebe que aquilo é patológico e estranho a si, e essa crítica muda a leitura do quadro. Os contextos típicos são orgânicos e tóxicos:

  • alcoolismo crônico, inclusive durante a abstinência;
  • intoxicação por álcool, cocaína, maconha ou alucinógenos como o LSD;
  • alguns medicamentos para a doença de Parkinson;
  • estados infecciosos, metabólicos ou traumáticos;
  • crises focais dos lobos temporal e occipital.

Na pseudoalucinação, imagens ou vozes surgem sem objeto real e são vividas no interior da cabeça ou do corpo. Falta a elas a corporeidade da percepção: a pessoa diz que ouve “por dentro” e distingue a experiência do próprio pensamento.

Um alerta de terminologia. Na literatura em inglês, pseudohallucination também designa a alucinação reconhecida como irreal, o que a tradição brasileira chama de alucinose. Ao ler um artigo ou um laudo, confira o sentido que o autor usa. No seu registro, descreva o fenômeno além do nome: onde a voz é ouvida, com que nitidez e com que grau de crítica.

As duas tradições e o diferencial das vozes internas estão em alucinação e pseudoalucinação.

Despersonalização e desrealização

A CID-11 inclui a despersonalização e a desrealização entre as perturbações da percepção, ao lado das alucinações.

Na despersonalização, a pessoa se sente estranha a si mesma, como se observasse o próprio corpo ou os próprios pensamentos de fora. Na desrealização, o mundo parece irreal e distante, como um cenário ou um filme.

Nos dois casos, o teste de realidade se mantém. A pessoa sabe que continua sendo ela e que o mundo é o mesmo, e é justamente esse contraste que assusta. As duas experiências são comuns em crises de pânico, na ansiedade intensa, no trauma, na privação de sono e no uso de substâncias. Quando persistem ou se repetem com sofrimento importante, podem compor o transtorno de despersonalização-desrealização, que faz parte do grupo dos transtornos dissociativos na classificação.

Na crise de pânico, a sensação de irrealidade assusta tanto quanto os sintomas físicos, e o diferencial com causas médicas está em pânico ou condição médica.

Ouvir vozes é sempre psicose?

Alucinar é bem mais comum do que ter uma psicose. Numa pesquisa com 31.261 pessoas de 18 países, 5,8% relataram ao menos uma experiência psicótica ao longo da vida, e as alucinatórias (5,2%) foram muito mais frequentes que as delirantes (1,3%). Em um terço dos casos, a experiência aconteceu uma única vez.

O luto é outro contexto frequente. Entre 30% e 60% das pessoas viúvas relatam perceber quem morreu, por uma voz, uma visão ou uma sensação de presença, sem história de transtorno mental. Muitas vivem essa experiência com conforto, e ela se lê dentro do processo de luto; o diferencial com a depressão está em depressão ou luto.

Vozes em contexto religioso também pedem leitura cultural antes de qualquer hipótese, como mostra o artigo sobre delírio ou crença cultural.

O que aproxima uma alucinação de um quadro psicótico é o conjunto:

  • repetição e persistência ao longo de semanas;
  • convicção plena, com uma explicação delirante em torno da experiência;
  • vozes que comentam, dialogam ou dão ordens;
  • outras alterações associadas, como delírio, desorganização do pensamento ou embotamento afetivo;
  • queda do funcionamento e mudança de comportamento em resposta às vozes.

As hipóteses dentro do espectro psicótico estão organizadas em diagnóstico diferencial das psicoses.

Quando pensar em causa orgânica?

Algumas características deslocam a hipótese da psicopatologia primária para a clínica médica ou a neurologia e pedem encaminhamento.

  • Alucinações visuais predominantes, sobretudo complexas. São menos típicas da esquizofrenia e comuns no delirium, nas intoxicações e nas demências.
  • Alucinações olfativas ou gustativas. A percepção de cheiros sem estímulo, chamada fantosmia, pode indicar lesão cerebral ou crises no lobo temporal, que produzem sintomas parecidos com os da esquizofrenia. Quem está em tratamento para esquizofrenia e sente cheiros sem estímulo merece também uma avaliação neurológica.
  • Início agudo com consciência flutuante, desorientação e desatenção. É o retrato do delirium, uma urgência médica, descrito em consciência e atenção.
  • Relação temporal com substâncias, medicamentos ou abstinência, tema de psicose induzida por substância.
  • Sinais neurológicos associados, como dor de cabeça nova, convulsões, perda de força ou alteração da marcha.
  • Primeiro episódio em idade avançada, em quem nunca teve história psiquiátrica.

A demência com corpos de Lewy é um exemplo que vale conhecer. O consenso internacional de 2017 lista entre suas características centrais as alucinações visuais complexas e recorrentes, em geral de pessoas, crianças ou animais, ao lado da flutuação da cognição, do parkinsonismo e do transtorno comportamental do sono REM, em que a pessoa encena os sonhos. A sensibilidade grave a antipsicóticos aparece entre as características de suporte, o que torna arriscado tratar esse quadro como uma psicose tardia.

Como examinar a sensopercepção na entrevista

Poucas pessoas contam por conta própria que ouvem vozes. O medo de parecer louca, a desconfiança e a própria vivência psicótica fazem o relato depender das perguntas.

Comece pelo aberto e avance para o específico:

  1. “Às vezes a mente nos prega peças. Já aconteceu de você ouvir, ver ou sentir algo que as pessoas ao redor pareciam não perceber?”
  2. “Como é isso? É uma voz ou várias? De homem, de mulher, de alguém conhecido?”
  3. “De onde vem: de fora, do corredor, de dentro da cabeça?”
  4. “O que dizem? Falam com você ou sobre você? Mandam você fazer alguma coisa?”
  5. “Quando acontece? Ao deitar, ao acordar, com barulho, no silêncio, depois de beber ou usar alguma substância?”
  6. “O que você acha que é isso?” Essa pergunta mede a crítica.
  7. “O que você faz quando acontece?” Essa mede o impacto e o risco.

Observe também o comportamento alucinatório: olhar fixo para um ponto vazio, pausas na fala como quem escuta, respostas a alguém que não está ali, riso imotivado, mãos tapando os ouvidos. O que se observa entra no registro separado do que é relatado.

Alucinações de comando que mandam ferir a si ou a outra pessoa exigem avaliação de risco na mesma sessão e comunicação com a rede de cuidado.

Como registrar no exame psíquico

Um registro vago esconde a informação que diferencia as hipóteses. Compare:

Vago: “Apresenta alucinações auditivas.”

Descritivo: “Relata ouvir, há três semanas, duas vozes masculinas desconhecidas, vindas do lado de fora do quarto, que comentam suas ações e a chamam de fracassada. Ocorrem diariamente, mais à noite. Sem crítica: acredita que são vizinhos. Nega vozes de comando. Durante a entrevista, interrompe a fala duas vezes e olha para a porta.”

O segundo registro informa modalidade, forma, conteúdo, localização, frequência, crítica e comportamento observado. Com ele, outro profissional consegue comparar a evolução semana a semana. O modelo completo de redação está em súmula psicopatológica.

Um caso fictício: as crianças na sala

Caso fictício

Lúcia, 74 anos: “tem crianças brincando na sala”

Lúcia, personagem fictícia, chega trazida pela filha. Há quatro meses, vê no fim da tarde duas crianças sentadas no tapete da sala. Elas nunca falam. Lúcia conversa com elas, às vezes oferece biscoito, e em outros momentos diz à filha que “sabe que é coisa da cabeça”.

A filha conta que a mãe tem dias ótimos e dias em que parece distante e confusa. À noite, ela se debate e grita durante o sono, como se brigasse com alguém. Nos últimos meses, passou a andar mais devagar e tropeçou duas vezes.

A primeira impressão seria uma psicose de início tardio, e o exame aponta outro caminho. As alucinações são visuais, complexas e recorrentes; a crítica oscila; há flutuação da atenção e da consciência, sinais de parkinsonismo e um comportamento noturno sugestivo de transtorno do sono REM. O conjunto lembra o quadro da demência com corpos de Lewy e também exige descartar delirium, efeito de medicamentos e perda visual.

Conduta: encaminhamento à neurologia ou à geriatria com relatório descritivo das alucinações, da flutuação e do sono, com a hipótese registrada para que o médico a considere antes de qualquer antipsicótico. O exame psíquico segue nos dias bons e nos ruins.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

Descrever alucinações com precisão leva tempo, e a riqueza do relato se perde quando a anotação é feita de memória. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.

Na prática clínica

Quando alguém me conta que ouve ou vê coisas, peço que descreva a última vez em detalhes, como se eu estivesse ao lado: onde estava, o que fazia, de onde vinha o som.

A cena concreta revela o que a pergunta genérica esconde. Havia um ruído real? Era hora de dormir? A pessoa tinha bebido? A voz vinha do corredor ou de dentro?

E pergunto sempre o que a pessoa acha que aquilo é. A resposta mede a crítica de forma direta e orienta todo o resto do exame.

Para pacientes e famílias

Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.

Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo

Como examinar a sensopercepção com segurança

Diferenciar ilusão, alucinação, alucinose e pseudoalucinação muda a hipótese e a conduta. Essa leitura separa a psicose do delirium, do luto, da experiência do sono e da epilepsia, e o erro mais comum é parar no rótulo.

Na Formação em Psicopatologia, a sensopercepção e as demais funções psíquicas são estudadas uma a uma, com suas alterações, e aplicadas em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.

É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é método para descrever falsas percepções no próximo atendimento.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ilusão e alucinação?

Na ilusão, existe um objeto real que é percebido de forma deformada. Na alucinação, a percepção acontece sem objeto presente.

O que é pseudoalucinação?

É a percepção de vozes ou imagens sem objeto real, vivida no interior da cabeça ou do corpo, com menos nitidez que uma percepção verdadeira.

O que é alucinose?

É uma experiência alucinatória que a pessoa reconhece como patológica e estranha a si, com consciência e crítica preservadas. Aparece sobretudo em quadros orgânicos e tóxicos.

Quais são os tipos de alucinação?

Auditivas, visuais, táteis, olfativas, gustativas, cenestésicas e cinestésicas, além das hipnagógicas e hipnopômpicas, ligadas ao sono, e das formas funcional, combinada, extracampina e autoscópica.

Ter alucinação ao adormecer é normal?

As alucinações ao adormecer e ao despertar são frequentes na população geral. Pedem avaliação quando são muito frequentes, angustiantes ou vêm acompanhadas de sonolência diurna intensa.

Alucinação visual indica esquizofrenia?

Com menos frequência que a auditiva. Alucinações visuais predominantes pedem investigação de delirium, substâncias, demências e doenças neurológicas.

Referências

Lúcia é uma personagem fictícia. As tabelas, as listas e o modelo de registro foram elaborados com finalidade didática.

Continue lendo

Mais sobre Semiologia psicopatológica

De outro tema

Voltar ao topo