Síndromes psicopatológicas: o que são, quais são e como usar na avaliação
O que são síndromes psicopatológicas, quais são as grandes síndromes, como separar sintomas nucleares de periféricos e fazer o diagnóstico sindrômico.

Neste artigo
- Sinal, sintoma, síndrome e transtorno: qual é a diferença?
- Sintomas nucleares e periféricos: o que está no centro do quadro?
- O que são personalidade e sinais pré-mórbidos?
- Como fazer o diagnóstico sindrômico?
- Como o quadro evolui no tempo: curso, crise, reação, fase e surto?
- Quais são as grandes síndromes psicopatológicas?
- Dois casos fictícios
- Que erros desorganizam a leitura sindrômica?
- Como registrar a hipótese sindrômica
- Onde aprender a ler síndromes com segurança
- Perguntas frequentes
- Referências
Síndrome psicopatológica é um conjunto de sinais e sintomas que aparecem juntos e formam uma configuração reconhecível, antes que a causa esteja definida. As grandes síndromes são as afetivas (depressiva, ansiosa e maníaca), as psicóticas, as psicomotoras, com a catatonia, as mentais orgânicas, como o delirium e as demências, as alimentares e as relacionadas à cultura. Identificá-las organiza a avaliação e orienta o cuidado imediato.
Uma pessoa procura atendimento porque “não consegue mais funcionar”. Na mesma conversa aparecem insônia, cansaço, irritabilidade, preocupação, esquecimento e afastamento das pessoas. Se cada queixa virar um diagnóstico, o prontuário fica cheio de nomes e pobre em explicação. Se tudo virar “estresse”, informação importante desaparece.
A leitura sindrômica ocupa o espaço entre esses dois erros. Ela pergunta o que esses achados significam juntos: quais aparecem ao mesmo tempo, quais estão no centro do quadro e quais giram em torno dele. É o degrau que liga a descrição semiológica ao diagnóstico diferencial, e costuma ser o mais pulado.
Sinal, sintoma, síndrome e transtorno: qual é a diferença?
Sinal é o que você observa: a fala lenta, a agitação, o olhar que não acompanha a conversa. Sintoma é o que a pessoa relata viver: tristeza, medo, vozes, a sensação de estranheza. Síndrome é o conjunto de sinais e sintomas que aparecem juntos e formam uma configuração reconhecível, sem que a causa esteja estabelecida. Transtorno é a categoria nosológica, com requisitos, curso e exclusões definidos por uma classificação como a CID-11 ou o DSM-5-TR.
| Nível | Pergunta que responde | Exemplo |
|---|---|---|
| Sinal | O que foi observado, e em quais condições? | Fala mais lenta durante toda a entrevista |
| Sintoma | O que a pessoa relata viver? | “Perdi o interesse por tudo” |
| Síndrome | Como os achados se organizam? | Síndrome depressiva |
| Transtorno | Quais requisitos, curso e exclusões foram verificados? | Episódio depressivo, transtorno bipolar, transtorno de adaptação… |
A mesma síndrome depressiva pode pertencer a um episódio depressivo, à fase depressiva de um transtorno bipolar, a um quadro induzido por substância ou a uma doença clínica. A síndrome estreita o campo; o diferencial decide.
Uma síndrome também não é “doença pela metade”. Ela pode ser grave e exigir resposta imediata antes de qualquer conclusão diagnóstica. E continua útil depois do diagnóstico, para descrever como o quadro se apresenta hoje e como muda durante o acompanhamento.
Sintomas nucleares e periféricos: o que está no centro do quadro?
Nem todo sintoma pesa o mesmo na organização de uma síndrome. Gosto de usar a imagem de um alvo. Os sintomas nucleares ficam na mosca, no centro: são característicos daquele agrupamento e precisam estar presentes para defini-lo. Os sintomas periféricos ocupam os círculos em volta: podem estar presentes, mas são inespecíficos e aparecem em muitos quadros.
Alguns exemplos mostram a diferença:
- Síndromes psicóticas: alucinações e delírios estão no centro. Ansiedade e humor deprimido podem acompanhar o quadro, na periferia.
- Síndromes afetivas: o núcleo é a mudança do humor e do ritmo psíquico, lento na depressão e acelerado na mania.
- Delirium: a alteração do nível de consciência é nuclear. Sem ela, não se fala em delirium.
A posição de um sintoma depende da síndrome. A ansiedade é nuclear nos transtornos de ansiedade e periférica no início de uma esquizofrenia ou de um quadro bipolar, em que frequentemente aparece primeiro. Por isso, a pergunta útil nunca é “qual é o sintoma mais forte?”, e sim “o que está no centro deste conjunto?”.
Uma distinção precisa ficar clara. Nuclear não significa mais importante para o cuidado. Uma insônia periférica pode ser a queixa que mais faz sofrer, e uma ideação suicida periférica é prioridade absoluta. A leitura sindrômica responde “o que caracteriza o quadro?”; a pergunta “o que exige atenção agora?” corre em paralelo.
O que são personalidade e sinais pré-mórbidos?
Pré-mórbido é o que existe antes do adoecimento. A personalidade pré-mórbida é o modo de ser da pessoa antes do quadro atual: sempre reservada, sempre intensa, sempre organizada. Os sinais pré-mórbidos são indicadores anteriores que só ganham sentido depois, como o isolamento progressivo na adolescência de alguém que desenvolve uma psicose anos depois.
Essa distinção protege contra dois erros. O primeiro é tomar um traço antigo como sintoma novo: quem sempre preferiu poucas relações não está necessariamente “se isolando”. O segundo é perder a pista que já estava lá. Por isso, a anamnese precisa percorrer a infância e a adolescência, e não apenas os últimos meses.
Como fazer o diagnóstico sindrômico?
O diagnóstico sindrômico tem três etapas.
- Caracterize os sinais e os sintomas. O exame psíquico descreve cada função: consciência, atenção, orientação, sensopercepção, pensamento, afetividade, vontade e psicomotricidade. Peça exemplos concretos. “Estou sem memória” pode significar esquecer compromissos, perder o fio da leitura ou não recuperar acontecimentos inteiros, e cada uma dessas experiências leva a hipóteses diferentes.
- Ordene os achados em síndromes. Pergunte o que aparece junto no tempo, o que é nuclear e o que é periférico, e o que mudou em relação ao funcionamento habitual. Sintomas lembrados de anos diferentes não formam, automaticamente, um único quadro atual.
- Formule as hipóteses nosológicas. A síndrome indica em que família de transtornos procurar. Daí em diante, o diferencial percorre as exclusões e compara os transtornos possíveis.
O diagnóstico sindrômico é especialmente útil quando a causa ainda não está clara e em situações de urgência. No pronto-socorro, na atenção básica e no serviço público de saúde, reconhecer uma síndrome psicótica aguda ou um delirium orienta a conduta horas ou dias antes de qualquer diagnóstico específico. Uso esse raciocínio com frequência no serviço público, justamente por isso.
Como o quadro evolui no tempo: curso, crise, reação, fase e surto?
A síndrome descreve o conjunto num momento; a evolução diz como ele se move na vida da pessoa. A psicopatologia descritiva separa duas grandes formas: os cursos longitudinais, que atravessam a biografia, e os fenômenos agudos, que irrompem e se retiram. Usar o nome certo não é detalhe acadêmico. Cada termo carrega uma hipótese sobre o que está acontecendo.
| Forma de evolução | Como se apresenta | Exemplo |
|---|---|---|
| Processo | Transformação lenta, insidiosa e duradoura da personalidade, difícil de compreender pela biografia | Instalação de uma esquizofrenia |
| Desenvolvimento | Evolução compreensível de traços ao longo da vida, reconhecível em retrospecto | Um padrão hipocondríaco ou histriônico que se consolida |
| Crise ou ataque | Início e fim abruptos, duração de segundos a minutos | Crise de pânico, crise epiléptica, crise dissociativa |
| Reação vivencial anormal | Resposta intensa a um acontecimento significativo, por semanas ou meses, com retorno ao estado anterior | Sintomas depressivos, ansiosos ou até paranoides após uma perda |
| Fase | Período delimitado de alteração, com recuperação do funcionamento | Fase depressiva ou maníaca de um transtorno do humor |
| Surto | Irrupção aguda que tende a deixar mudanças duradouras | Surto esquizofrênico |
Quando o fenômeno é agudo e você ainda não sabe se é crise, reação, fase ou surto, o termo correto é episódio. Ele descreve sem antecipar uma conclusão. À medida que o diagnóstico se firma, o nome se especifica. Um erro comum mostra por que isso importa: “surto maníaco” mistura categorias. A mania evolui em fases, e “surto” pertence à linguagem das psicoses esquizofrênicas, em que a irrupção aguda costuma deixar marcas.
A reação vivencial pede um cuidado especial. Ela pode produzir sintomas intensos sem significar um transtorno instalado. Com o tempo, pode se confirmar como o início de um quadro, ou cessar e deixar a pessoa como era antes. Acompanhar o curso é o que decide.
Quais são as grandes síndromes psicopatológicas?
A organização abaixo segue a tradição da psicopatologia descritiva, como a de Dalgalarrondo na literatura brasileira, e dialoga com os capítulos da CID-11. É um mapa para orientar perguntas; cada síndrome pede, depois, uma investigação própria e detalhada.
As grandes síndromes e o que está no centro de cada uma
| Síndrome | Núcleo | O que investigar em seguida |
|---|---|---|
| Depressiva | Humor deprimido, perda de interesse ou prazer, lentificação do ritmo psíquico | Duração, episódios anteriores (inclusive de ativação), risco, saúde física, substâncias |
| Ansiosa | Medo ou apreensão, preocupação, manifestações autonômicas | Foco do medo, situações evitadas, crises de pânico, relação com outros quadros |
| Maníaca | Humor elevado, expansivo ou irritável, diferente do habitual; aceleração das funções psíquicas | Sono, energia, duração, repercussões, sintomas psicóticos, substâncias |
| Psicótica | Delírios, alucinações, desorganização do pensamento e do comportamento; sintomas negativos | Início (agudo ou insidioso), curso, humor, substâncias, condições médicas, insight |
| Psicomotora e catatônica | Estupor, negativismo, flexibilidade cérea, posturas mantidas, agitação sem finalidade | Condições psiquiátricas e médicas associadas; avaliação urgente |
| Mental orgânica | Delirium: alteração aguda e flutuante da consciência e da atenção. Demência: declínio cognitivo progressivo | Início, flutuação, doenças, medicamentos, idade; avaliação médica |
| Alimentar | Alterações do comportamento alimentar ligadas ao peso, à forma corporal ou ao controle | Restrição, compulsão, purgação, risco clínico |
| Relacionada à cultura | Expressões de sofrimento que ganham sentido dentro de um grupo cultural | O que aquela experiência significa para a pessoa e para o grupo |
As síndromes afetivas: depressiva, ansiosa e maníaca
As três formam uma tríade porque compartilham o núcleo: alteração do humor e do ritmo psíquico. Na síndrome depressiva, predominam o humor deprimido, a perda de interesse, a lentificação e as alterações de sono, apetite e energia. O NIMH lembra que a depressão afeta o funcionamento e não se confunde com tristeza passageira. Nem todos os sintomas precisam estar presentes. O conjunto costuma incluir alterações cognitivas: menos atenção e concentração, dificuldade para decidir e uma queda secundária da memória que, em pessoas idosas, pode imitar uma demência. É a chamada pseudodemência depressiva. Ideias de culpa, vergonha e autodepreciação completam o quadro e ajudam a separá-lo da tristeza comum.
Na síndrome maníaca, o humor elevado ou irritável é diferente do entusiasmo habitual da pessoa, e as funções psíquicas aceleram: pensamento, fala, atividade, com menos necessidade de sono. Um detalhe clínico importante: pessoas idosas em mania podem chegar confusas e desorientadas, o que leva a pensar em delirium. Nesses casos, a avaliação médica é obrigatória, e o curso ajuda a separar as hipóteses. A diferença entre mania e hipomania está na intensidade. Na hipomania, a mudança é perceptível para os outros, mas sem prejuízo marcante nem sintomas psicóticos. Na mania, o funcionamento se desorganiza e pode haver psicose, como mostra o artigo sobre mania com sintomas psicóticos. O guia de hipomania na entrevista clínica mostra como investigar períodos de ativação.
A síndrome ansiosa reúne a apreensão subjetiva e as manifestações autonômicas: taquicardia, suor, tremor, falta de ar, náusea, formigamento. As formas puras se organizam em dois grupos: as crises de pânico, episódicas e intensas, às vezes com despersonalização no auge, e a ansiedade generalizada, persistente e difusa. Em volta delas estão as síndromes em que a ansiedade é forte, mas organizada por outro núcleo, como as fóbicas e as obsessivas, antes chamadas de neuróticas, nome que as classificações atuais abandonaram. A síndrome ansiosa pode ser o núcleo de um transtorno de ansiedade ou a periferia de outro quadro. O artigo ataque de pânico ou condição médica mostra como a mesma crise pode pertencer a transtornos diferentes.
As síndromes psicóticas
A síndrome psicótica se organiza em três dimensões:
- Positiva: delírios e alucinações.
- Desorganização: pensamento, afeto, discurso e comportamento desorganizados, às vezes visíveis na roupa e na aparência.
- Negativa: empobrecimento da expressão afetiva, da fala, da iniciativa e do contato social.
O insight costuma ser baixo, o que torna a entrevista mais difícil e a informação de terceiros mais valiosa. O modo de instalação é uma das pistas mais úteis. Quadros de início abrupto, em poucos dias, muitas vezes após um estressor importante, costumam ter prognóstico melhor do que os de instalação lenta. Como o NIMH explica, a psicose aparece em muitas condições, e ter sintomas psicóticos não equivale a ter esquizofrenia. O diagnóstico diferencial das psicoses aprofunda essa comparação.
As síndromes psicomotoras e a catatonia
Agitação, lentificação e empobrecimento dos gestos não têm significado único. A catatonia é a forma mais marcante: estupor, negativismo, flexibilidade cérea (os membros mantêm a posição em que são colocados), posturas sustentadas, mutismo. Ela aparece na esquizofrenia, mas também em transtornos do humor e em várias condições médicas, segundo o consenso da British Association for Psychopharmacology. Suspeita de catatonia exige avaliação médica rápida. Pouca resposta não é, necessariamente, falta de colaboração. No outro extremo, a agitação psicomotora aparece na intoxicação por estimulantes como cocaína e anfetaminas, no uso de corticoides, nas síndromes de abstinência e no delirium, além da mania: a mesma agitação pode ter causas muito diferentes.
As síndromes mentais orgânicas: delirium e demência
O delirium é uma alteração aguda e flutuante da consciência e da atenção, que se instala em horas ou dias, com desorientação, alterações da percepção e do comportamento. As recomendações do NICE destacam justamente essas mudanças recentes e flutuantes. É uma emergência médica, e não um quadro para acompanhamento psicoterápico.
A demência é o oposto no tempo: declínio cognitivo gradual e progressivo, com a consciência preservada. Uma pista de ouro é justamente essa: início súbito e flutuação apontam para delirium, enquanto início insidioso e progressão lenta apontam para demência. E um cuidado de linguagem: delirium não é delírio. O primeiro é uma síndrome orgânica aguda; o segundo, uma alteração do conteúdo do pensamento.
As síndromes alimentares e as relacionadas à cultura
As síndromes alimentares envolvem restrição, compulsão, purgação e a relação com o peso e a forma corporal. Elas pedem atenção ao risco clínico, que pode ser grave mesmo quando o sofrimento parece apenas comportamental aos olhos da família.
As síndromes relacionadas à cultura lembram que o sofrimento se expressa em linguagens culturais. Uma experiência que parece bizarra fora do contexto pode ser compartilhada e compreensível dentro do grupo. Antes de concluir, pergunte o que aquela experiência significa para a pessoa e para a comunidade dela. O artigo delírio ou crença cultural mostra esse cuidado na prática.
Onde as síndromes aparecem na CID-11
A leitura sindrômica também ajuda a navegar pela classificação. A CID-11 é uma classificação de todas as doenças, e não só das mentais. Por isso, além dos capítulos de transtornos do humor, de ansiedade e de psicoses primárias, ela tem um grupo próprio para as síndromes mentais ou comportamentais secundárias. Nesse grupo entram a síndrome psicótica, a do humor, a ansiosa e outras, quando são efeito direto de outra condição médica. Delirium e demências ficam no grupo dos transtornos neurocognitivos, e a catatonia deixou de ser subtipo da esquizofrenia e ganhou um agrupamento próprio: associada a outro transtorno mental ou induzida por substâncias. Quando decorre de uma condição médica, entra no grupo das síndromes secundárias.
Na prática, isso significa que a mesma síndrome pode levar a capítulos diferentes conforme a causa encontrada. A síndrome psicótica de alguém com uma doença autoimune do sistema nervoso não é classificada como esquizofrenia, e a síndrome do humor causada por hipotireoidismo não é um transtorno depressivo primário. É o diferencial que decide onde o quadro se encaixa, e por isso o diagnóstico sindrômico vem antes dele.
Dois casos fictícios
Os casos abaixo são inteiramente fictícios.
Elisa, 42 anos: “tudo exige um esforço enorme”
Elisa procura atendimento por dificuldade para trabalhar, cansaço e esquecimento. Ao detalhar, conta que nas últimas semanas abandonou atividades de que gostava, tem pouco interesse em conversar e demora para começar tarefas. Dorme mal e passa parte da noite preocupada com dívidas. Na entrevista, fala devagar, mas acompanha as perguntas.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
A primeira decisão é não transformar cada queixa em diagnóstico. O esquecimento não demonstra um transtorno neurocognitivo, a preocupação não fecha um transtorno de ansiedade e a fala lenta não explica sua causa. Organizado, o conjunto aponta um núcleo: perda de interesse, lentificação e mudança recente em relação ao funcionamento habitual, isto é, uma síndrome depressiva. A preocupação e a insônia ficam na periferia, e cada uma merece investigação própria.
A partir daí, as perguntas se estreitam: há quanto tempo, se houve episódios anteriores, inclusive de ativação, qual é o risco, como está a saúde física e o que ela usa. A síndrome não fecha o diagnóstico, mas diz exatamente por onde continuar.
João, 71 anos: uma mudança que começou ontem
A filha de João procura atendimento porque ele “ficou muito ansioso”. Desde o dia anterior, ele alterna momentos de conversa com períodos em que parece não acompanhar o que é dito. Às vezes não sabe onde está e diz ver pessoas que os outros não veem. A família menciona uma mudança recente de medicação.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
Aqui a síndrome muda tudo. Início agudo, flutuação da atenção, desorientação e alteração da percepção formam o núcleo de um delirium até prova em contrário. A palavra “ansioso” não explica o conjunto. A prioridade é avaliação médica urgente, com a informação sobre a medicação comunicada à equipe, e não a continuação da entrevista psicológica.
Que erros desorganizam a leitura sindrômica?
- Escolher o nome antes de conhecer o fenômeno. Se a entrevista só procura confirmar “síndrome ansiosa”, o resto passa despercebido.
- Somar sintomas de épocas diferentes. Uma crise na adolescência e uma dificuldade atual contam a história, mas não formam um quadro único.
- Confundir intensidade com centralidade. O sintoma que mais incomoda nem sempre é o nuclear.
- Usar a síndrome como causa. Dizer que alguém dorme mal “porque tem uma síndrome ansiosa” apenas renomeia o que você observou.
- Esquecer o corpo. Mudanças agudas de consciência, atenção ou comportamento pedem avaliação médica antes de qualquer leitura psicológica do quadro.
Como registrar a hipótese sindrômica
Um bom registro permite que outra profissional entenda por que você chegou àquela síndrome. Organize-o em cinco pontos: apresentação atual, com as fontes de cada dado; curso e mudança em relação ao habitual; síndrome considerada, com o que é nuclear e o que é periférico; limites, separando informação ausente de dado contrário; e próximos passos.
As palavras fazem diferença. “Não relata episódios anteriores após investigação” é diferente de “episódios anteriores não investigados”. E “sem alteração observada na entrevista” não prova ausência do fenômeno em outros contextos.
Descrever sinais, sintomas, curso e hipótese sindrômica com precisão é o que mais pesa quando a sessão precisa ser reconstruída de memória no fim do dia. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica mostra como o quadro muda entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.
Na minha clínica, reviso a hipótese sindrômica com um exercício simples: releio o registro sem os nomes. Deixo só os sinais observados, os sintomas relatados, o tempo e as repercussões, e me pergunto se outra profissional reconheceria o quadro a partir dessa descrição. Se faltarem exemplos, fontes ou a sequência temporal, completo com o que já sei, sem preencher lacunas por suposição.
Depois, recoloco a síndrome e confiro se o núcleo está de fato presente. Achados que não se encaixam ficam visíveis no registro: muitas vezes são eles que mudam a hipótese no encontro seguinte.
Por fim, explico à pessoa, em linguagem simples, o que identifiquei e o que ainda estou investigando. “Você descreveu mudanças no interesse, no sono e na disposição, e estou investigando como elas se relacionam” apresenta uma direção sem prometer uma certeza que ainda não existe.
Para conversar com pacientes sobre as etapas e os limites da avaliação, o guia de avaliação psicológica apresenta o processo em linguagem acessível e sem termos técnicos.
Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo
Onde aprender a ler síndromes com segurança
Reconhecer o núcleo de uma síndrome em poucos minutos, diante de uma queixa confusa, é uma habilidade treinável, e raramente ensinada com profundidade na graduação. Sem ela, o raciocínio pula direto da queixa para o nome do transtorno.
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Perguntas frequentes
Síndrome psicopatológica é a mesma coisa que transtorno mental?
Não. A síndrome descreve um conjunto de sinais e sintomas que aparecem juntos; o transtorno exige requisitos, curso e exclusões de uma classificação. A mesma síndrome depressiva pode pertencer a transtornos diferentes.
É possível reconhecer uma síndrome sem saber a causa?
Sim, e é justamente para isso que ela serve. O diagnóstico sindrômico organiza o quadro enquanto a causa ainda está sendo investigada e orienta a conduta imediata, sobretudo em urgências.
O que são sintomas nucleares e periféricos?
Nucleares são os que ficam no centro de uma síndrome e a caracterizam, como os delírios e as alucinações na síndrome psicótica. Periféricos acompanham o quadro, mas são inespecíficos, como a ansiedade no início de uma esquizofrenia.
Qual a diferença entre delirium e delírio?
Delirium é uma síndrome orgânica aguda, com alteração flutuante da consciência e da atenção, e exige avaliação médica urgente. Delírio é uma alteração do conteúdo do pensamento, uma convicção inabalável que não é compartilhada pelo grupo cultural.
Toda síndrome psicótica indica esquizofrenia?
Não. Sintomas psicóticos aparecem em transtornos do humor, quadros induzidos por substâncias, condições médicas, delirium e transtornos psicóticos agudos, entre outros. Início, curso e contexto orientam o diferencial.
Referências
- Dalgalarrondo P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Organização Mundial da Saúde. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural or neurodevelopmental disorders, publicado em 2024.
- NIMH. Depression.
- NIMH. Understanding psychosis.
- Catatonia in ICD-11. Revisão sobre a nova organização da catatonia na CID-11.
- NICE. Delirium: prevention, diagnosis and management (CG103).
- Rogers JP et al. Evidence-based consensus guidelines for the management of catatonia: recommendations from the British Association for Psychopharmacology. Journal of Psychopharmacology, 2023.
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