Exame psíquico: roteiro passo a passo para a entrevista clínica
Exame psíquico passo a passo: o que observar, perguntas para cada função, risco de suicídio, informantes, situações especiais e como registrar a súmula.

Neste artigo
- O exame psíquico é um questionário?
- Antes da primeira pergunta: o que já dá para observar
- O roteiro, função por função
- Como perguntar sem transformar a sessão num interrogatório
- Perguntar sobre suicídio
- Quando formalizar o exame
- Os informantes
- Situações especiais
- Como registrar: a súmula
- O que fazer com o que o exame encontra
- Erros frequentes
- Um caso fictício: o roteiro aplicado
- Como treinar o exame psíquico
- Perguntas frequentes
- Referências
O exame psíquico registra o estado das funções mentais no momento da entrevista. Começa pela observação, antes da primeira pergunta, e segue por consciência, orientação, atenção, memória, linguagem, pensamento, sensopercepção, juízo, afetividade, vontade, psicomotricidade, risco e crítica. As perguntas se encaixam na conversa, do aberto ao específico. O registro descreve o que foi visto e ouvido antes de concluir, numa súmula que termina com a impressão sindrômica.
Muita gente aprende o exame psíquico como uma lista de itens a preencher depois da consulta. Na prática, ele acontece durante a entrevista, na forma como a pessoa chega, fala, responde e reage, e em algumas perguntas bem colocadas. Um roteiro claro ajuda a não esquecer nada sem transformar a sessão num interrogatório.
Os conceitos de cada função e suas alterações estão no pilar de semiologia psicopatológica. Aqui o foco é a condução: em que ordem, com que perguntas e como registrar.
O exame psíquico é um questionário?
É um roteiro, usado com flexibilidade. A entrevista mais produtiva costuma ser a semiestruturada: o profissional tem em mente o que precisa avaliar e adapta a ordem e as perguntas ao que a pessoa traz.
Isso exige duas habilidades que parecem opostas. A primeira é saber calar: um entrevistador que interrompe o tempo todo aumenta a ansiedade de quem está sendo atendido e perde informação. A segunda é saber conduzir: em alguns momentos, com algumas pessoas, é preciso perguntar mais, delimitar temas e trazer a conversa de volta.
A técnica também muda com o contexto. Um exame num pronto-socorro, com alguém em crise, é mais curto e focado em risco e em consciência. Um exame no consultório, ao longo de uma primeira consulta, pode ser mais amplo. Na escola, no hospital, no domicílio ou no sistema prisional, o enquadre se ajusta ao lugar e aos objetivos.
Antes da primeira pergunta: o que já dá para observar
Boa parte do exame acontece nos primeiros minutos, antes de qualquer pergunta sobre sintomas:
- aparência e cuidado pessoal: roupas, higiene, arrumação, adequação ao contexto;
- postura e movimento: corpo curvado ou ereto, inquietação, lentidão, gestos repetitivos;
- contato visual e expressão facial: evitado, fixo, variável, congruente com o que é dito;
- atitude: colaborativa, desconfiada, hostil, sedutora, indiferente, dependente;
- como chegou: por iniciativa própria, trazido por alguém, encaminhado a contragosto.
A atitude diz muito. Uma pessoa que tenta conduzir a entrevista para onde deseja, que seduz, que ataca ou que se fecha está mostrando algo sobre o funcionamento dela e, às vezes, sobre os temas que prefere evitar. O detalhamento dessa etapa, com o que cada achado sugere, está em apresentação e atitude no exame psíquico.
Com pessoas invasivas, agressivas ou com comportamento sexualizado, o profissional estabelece limites com clareza e respeito. O limite protege o atendimento e, muitas vezes, devolve a conversa ao tema que aquele comportamento, consciente ou não, tentava desviar.
O roteiro, função por função
A ordem abaixo é a mais usada, porque as primeiras funções condicionam a leitura das seguintes. Se a consciência está rebaixada, por exemplo, alterações de memória ou de percepção ganham outro significado.
Roteiro do exame psíquico
| Etapa | O que observar | Perguntas possíveis |
|---|---|---|
| 1. Aparência e atitude | Cuidado pessoal, postura, contato, atitude na entrevista | Observação; “como você chegou até aqui hoje?” |
| 2. Consciência | Nível de alerta, clareza, flutuações | Observação ao longo da entrevista; respostas lentas ou perplexas |
| 3. Orientação | Tempo, lugar, pessoa, si mesmo | “Que dia é hoje?”, “onde estamos?”, “por que você veio?” |
| 4. Atenção | Fixar, sustentar, mudar o foco | Observação; se necessário, tarefas simples, como contar de trás para a frente |
| 5. Memória | Fatos recentes e antigos, lacunas | “O que você fez ontem?”, “quando isso começou?” |
| 6. Linguagem e fala | Velocidade, volume, fluência, compreensão | Observação da conversa espontânea |
| 7. Pensamento | Curso, forma, conteúdo | “O que tem ocupado a sua cabeça?”, “os pensamentos vêm rápido demais?” |
| 8. Sensopercepção | Percepções sem objeto, distorções | “Já ouviu vozes ou viu coisas que outras pessoas não viam?” |
| 9. Juízo de realidade | Convicções, abertura a revisar crenças | “Como você explica o que está acontecendo?”, “existe outra explicação possível?” |
| 10. Afetividade e humor | Humor relatado, afeto observado, congruência | “Como tem estado o seu humor?”, “o que ainda te dá prazer?” |
| 11. Vontade e psicomotricidade | Iniciativa, impulsos, ritmo motor | “Tem conseguido fazer o que precisa?”, observação do movimento |
| 12. Risco | Ideação suicida, planos, heteroagressividade | “Você tem pensado em morrer ou em se machucar?” |
| 13. Crítica | Reconhecimento de que algo mudou e precisa de cuidado | “O que você acha que está acontecendo com você?” |
| 14. Inteligência e personalidade | Impressão geral, funcionamento prévio | História escolar e profissional; “como você era antes disso?” |
A tabela é um guia. Na entrevista real, muitas etapas acontecem ao mesmo tempo, e a ordem se adapta à conversa.
Como perguntar sem transformar a sessão num interrogatório
Algumas estratégias ajudam a encaixar o exame na conversa:
- Do aberto ao específico. Comece com “me conta o que está acontecendo” e só depois pergunte pelos detalhes: desde quando, com que frequência, com que intensidade.
- Use as palavras da pessoa. Se ela disse “minha cabeça está a mil”, pergunte “como é essa cabeça a mil?”, e não “você tem aceleração do pensamento?”.
- Normalize antes de perguntar. “Algumas pessoas, quando passam por algo assim, ouvem coisas ou têm a sensação de estar sendo observadas. Isso aconteceu com você?” torna mais fácil responder a perguntas delicadas.
- Faça transições explícitas. “Agora vou fazer algumas perguntas mais objetivas, que faço a todas as pessoas” reduz o estranhamento das perguntas de orientação e de memória.
- Observe a resposta, além do conteúdo. Quanto tempo a pessoa leva para responder, se muda de assunto, se a expressão combina com o que diz.
A empatia, aqui, é a capacidade de compreender a experiência a partir do ponto de vista da pessoa, e não do próprio. Ela é o que permite que perguntas difíceis sejam respondidas com sinceridade.
Perguntar sobre suicídio
A avaliação de risco faz parte de todo exame psíquico. A pergunta deve ser direta e feita com naturalidade: “você tem pensado em morrer?”, “já pensou em tirar a própria vida?”.
O receio de que perguntar aumente o risco não encontra apoio na pesquisa. Uma revisão de Dazzi e colegas, de 2014, reuniu 13 estudos com amostras da comunidade e de grupos de risco e não encontrou aumento da ideação suicida depois de perguntas sobre o tema; e sugeriu que falar sobre o tema pode até ajudar a reduzi-la.
Quando a resposta é positiva, o exame continua: frequência e intensidade dos pensamentos, existência de plano, acesso a meios, tentativas anteriores, uso de álcool ou drogas, fatores de proteção e rede de apoio. A resposta define a conduta, do plano de segurança combinado na sessão ao encaminhamento imediato para um serviço de urgência.
A mesma lógica vale para o risco de agressão a outras pessoas.
Quando formalizar o exame
Na maioria das entrevistas, a observação e a conversa bastam. Algumas situações pedem tarefas ou instrumentos mais formais:
- suspeita de alteração da consciência ou de delirium, com flutuação do alerta, desorientação e desatenção que começaram há pouco tempo;
- queixas de memória ou suspeita de declínio cognitivo, sobretudo em pessoas idosas;
- suspeita de deficiência intelectual;
- necessidade de documentar o estado cognitivo, por exemplo antes de uma decisão importante.
Nesses casos, tarefas simples de orientação, atenção e memória ajudam na triagem, e a avaliação completa pode exigir testes psicológicos ou neuropsicológicos e avaliação médica. Alterações agudas da consciência são urgência médica. O raciocínio sobre causas médicas e substâncias está em condição médica e substâncias no diferencial.
Os informantes
O exame registra o que o profissional observou, mas quem convive com a pessoa costuma ver o que não aparece na sala: mudanças de comportamento, episódios que a pessoa não relata, a diferença entre o jeito de antes e o de agora.
Familiares, a escola, colegas de trabalho ou chefias podem ser ouvidos com o consentimento da pessoa, ou dos responsáveis, no caso de crianças e adolescentes. A informação dos informantes entra na anamnese e ajuda a interpretar o exame. O valor da reconstrução do curso está em história longitudinal no diagnóstico.
Situações especiais
Crianças e adolescentes. O exame se apoia mais na observação do brincar, do desenho e da interação, e o que é esperado para a idade muda a leitura de cada função. Pais e escola são informantes essenciais. O detalhamento está em exame psíquico na criança.
Pessoas idosas. Consciência, orientação e memória ganham peso, e mudanças recentes pedem investigação médica. Déficits sensoriais, como perda auditiva, precisam ser considerados antes de concluir por alterações cognitivas.
Crise. O exame se concentra em consciência, orientação, risco e juízo de realidade. O restante pode esperar.
Diferenças culturais e de idioma. Formas de nomear o sofrimento, crenças religiosas e expressões idiomáticas precisam ser compreendidas no contexto da pessoa, como discuto em delírio ou crença cultural.
Atendimento online. A postura, a marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis, e atrasos de conexão podem parecer latência de resposta. Vale pedir ajustes de câmera, perguntar mais e, quando necessário, combinar avaliação presencial ou médica.
Como registrar: a súmula
A súmula do exame psíquico organiza os achados na ordem das funções, com descrições concretas, e termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica. Um exemplo breve:
Mulher de 45 anos, vestes adequadas, cuidado pessoal preservado, postura curvada, contato visual escasso, colaborativa. Vigil, orientada no tempo, no espaço e quanto a si. Hipoprosexia. Memória sem alterações grosseiras na entrevista. Fala em volume baixo, com latência aumentada. Pensamento lentificado, sem alterações de forma; conteúdo com ideias de culpa e de inutilidade, sem delírios. Nega alterações da sensopercepção. Humor referido como “sem vontade de nada”; afeto hipomodulado, congruente. Hipobulia. Lentificação psicomotora discreta. Ideação de morte passiva, sem plano. Crítica parcial. Impressão: síndrome depressiva, sem sintomas psicóticos, com risco a acompanhar.
O registro descreve antes de concluir. “Afeto hipomodulado” é uma observação; “depressão” é uma hipótese, que precisa da história e do curso. As regras de redação, com glossário e exemplos comentados, estão em súmula psicopatológica. A passagem da síndrome ao diagnóstico está em síndromes psicopatológicas.
O que fazer com o que o exame encontra
O exame psíquico termina numa decisão. Três grupos de achados pedem ação no mesmo dia: alterações da consciência e da orientação de início recente, que sugerem uma condição médica aguda; risco de suicídio ou de agressão com plano ou intenção; e sinais de catatonia ou de desorganização grave, que impedem a pessoa de cuidar de si.
Nos demais casos, os achados orientam o que investigar em seguida: a história de episódios anteriores, o uso de substâncias, a avaliação médica de causas físicas, a conversa com informantes. E alguns achados só ganham sentido com o tempo, o que faz do exame seguinte uma parte da própria avaliação.
Erros frequentes
- Pular a consciência e a orientação e interpretar alucinações ou confusão como psicose, quando o quadro é um delirium.
- Registrar só o relato e deixar de fora o que foi observado.
- Usar rótulos no lugar de descrições, o que impede outro profissional de rever o raciocínio.
- Evitar a pergunta sobre suicídio por receio de ofender ou de sugerir a ideia.
- Fazer o exame uma vez só. O estado mental muda, e o exame precisa acompanhar o curso.
- Deixar a primeira impressão guiar o resto. O tema está em vieses cognitivos no diagnóstico.
Um caso fictício: o roteiro aplicado
Um exame completo, com trechos de entrevista e comentário função por função, está em exame psíquico: exemplo comentado. A seguir, um caso mais breve.
Rafael é um personagem criado para este artigo.
Rafael, 24 anos: “estou com muitos projetos”
Rafael chega trazido pela irmã. Veste roupas coloridas e combinadas de forma chamativa, fala alto, ri com facilidade e interrompe as perguntas para contar ideias. Diz que dorme três horas por noite há uma semana “e acorda ótimo”.
Está vigil e orientado. A atenção salta de um tema a outro, e ele se distrai com o barulho do corredor. A fala é acelerada e difícil de interromper. O pensamento é acelerado, com fuga de ideias; o conteúdo é de grandeza, com planos de abrir três empresas ao mesmo tempo, sem convicções delirantes. Nega alterações da sensopercepção. O humor é referido como “o melhor da vida”; o afeto é expansivo, com irritação quando contrariado. Está inquieto na cadeira. Nega ideação suicida. Acha que a família “está exagerando”.
Súmula resumida: vigil, orientado; distraibilidade; taquilalia; taquipsiquismo com fuga de ideias; ideias de grandeza sem delírio; humor eufórico com irritabilidade; agitação psicomotora leve; necessidade de sono reduzida; crítica ausente. Impressão: síndrome maníaca sem sintomas psicóticos. A investigação segue com história de episódios anteriores, uso de substâncias e avaliação psiquiátrica.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
O exame psíquico ganha valor quando é refeito e comparado ao longo do tempo, e as súmulas de cada encontro mostram o curso. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.
O exame começa na sala de espera. Antes de perguntar qualquer coisa, já observo como a pessoa chega, como se senta e como responde ao primeiro contato.
Faço as perguntas de orientação e de risco em todas as primeiras consultas, com naturalidade. Elas levam poucos minutos e mudam a condução quando algo aparece.
E escrevo a súmula logo depois do atendimento, com descrições, e não com rótulos. É o que me permite comparar um encontro com o outro.
Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.
Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo
Como treinar o exame psíquico
O exame psíquico é a habilidade que separa uma boa conversa de uma avaliação clínica. Ele só se torna natural com prática: saber o que observar, o que perguntar e como registrar sem perder a relação com a pessoa atendida.
Na Formação em Psicopatologia, a anamnese, a entrevista e o exame psíquico são estudados antes dos transtornos, e depois aplicados em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR, da súmula à impressão sindrômica e ao diagnóstico. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.
É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é um roteiro seguro para o próximo atendimento.
Perguntas frequentes
O que é o exame psíquico?
É o registro do estado das funções mentais no momento da entrevista, feito a partir da observação do profissional. Também é chamado de exame do estado mental.
Qual a ordem do exame psíquico?
A mais usada começa por aparência e atitude, consciência, orientação e atenção, segue por memória, linguagem, pensamento, sensopercepção, juízo e afetividade, e termina com vontade, psicomotricidade, risco e crítica.
Perguntar sobre suicídio pode aumentar o risco?
As pesquisas indicam que não. Perguntar de forma direta e acolhedora permite avaliar o risco e pode até reduzir a ideação.
O que é súmula psicopatológica?
É o resumo escrito do exame psíquico, função por função, com descrições concretas, que termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica.
Qual a diferença entre anamnese e exame psíquico?
A anamnese reconstrói a história dos sinais e sintomas. O exame psíquico registra o estado das funções mentais no momento da avaliação.
Dá para fazer exame psíquico online?
Dá, com limites: postura, marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis. Quando necessário, combina-se uma avaliação presencial ou médica.
Referências
Rafael é um personagem fictício, e a súmula de exemplo descreve uma pessoa fictícia. As tabelas e as listas foram elaboradas com finalidade didática.
- Dalgalarrondo P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Norris D, Clark MS, Shipley S. The mental status examination. American Family Physician, 2016.
- Dazzi T, Gribble R, Wessely S, Fear NT. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Psychological Medicine, 2014;44:3361-3.
- Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio e serviços de ajuda.
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