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Exame psíquico: roteiro passo a passo para a entrevista clínica

Exame psíquico passo a passo: o que observar, perguntas para cada função, risco de suicídio, informantes, situações especiais e como registrar a súmula.

Numa entrevista clínica, a psicóloga faz uma pergunta com a prancheta do roteiro na mão, observando a postura e a expressão do paciente.

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Neste artigo
  1. O exame psíquico é um questionário?
  2. Antes da primeira pergunta: o que já dá para observar
  3. O roteiro, função por função
  4. Como perguntar sem transformar a sessão num interrogatório
  5. Perguntar sobre suicídio
  6. Quando formalizar o exame
  7. Os informantes
  8. Situações especiais
  9. Como registrar: a súmula
  10. O que fazer com o que o exame encontra
  11. Erros frequentes
  12. Um caso fictício: o roteiro aplicado
  13. Como treinar o exame psíquico
  14. Perguntas frequentes
  15. Referências
Em resumo

O exame psíquico registra o estado das funções mentais no momento da entrevista. Começa pela observação, antes da primeira pergunta, e segue por consciência, orientação, atenção, memória, linguagem, pensamento, sensopercepção, juízo, afetividade, vontade, psicomotricidade, risco e crítica. As perguntas se encaixam na conversa, do aberto ao específico. O registro descreve o que foi visto e ouvido antes de concluir, numa súmula que termina com a impressão sindrômica.

Muita gente aprende o exame psíquico como uma lista de itens a preencher depois da consulta. Na prática, ele acontece durante a entrevista, na forma como a pessoa chega, fala, responde e reage, e em algumas perguntas bem colocadas. Um roteiro claro ajuda a não esquecer nada sem transformar a sessão num interrogatório.

Os conceitos de cada função e suas alterações estão no pilar de semiologia psicopatológica. Aqui o foco é a condução: em que ordem, com que perguntas e como registrar.

O exame psíquico é um questionário?

É um roteiro, usado com flexibilidade. A entrevista mais produtiva costuma ser a semiestruturada: o profissional tem em mente o que precisa avaliar e adapta a ordem e as perguntas ao que a pessoa traz.

Isso exige duas habilidades que parecem opostas. A primeira é saber calar: um entrevistador que interrompe o tempo todo aumenta a ansiedade de quem está sendo atendido e perde informação. A segunda é saber conduzir: em alguns momentos, com algumas pessoas, é preciso perguntar mais, delimitar temas e trazer a conversa de volta.

A técnica também muda com o contexto. Um exame num pronto-socorro, com alguém em crise, é mais curto e focado em risco e em consciência. Um exame no consultório, ao longo de uma primeira consulta, pode ser mais amplo. Na escola, no hospital, no domicílio ou no sistema prisional, o enquadre se ajusta ao lugar e aos objetivos.

Antes da primeira pergunta: o que já dá para observar

Boa parte do exame acontece nos primeiros minutos, antes de qualquer pergunta sobre sintomas:

  • aparência e cuidado pessoal: roupas, higiene, arrumação, adequação ao contexto;
  • postura e movimento: corpo curvado ou ereto, inquietação, lentidão, gestos repetitivos;
  • contato visual e expressão facial: evitado, fixo, variável, congruente com o que é dito;
  • atitude: colaborativa, desconfiada, hostil, sedutora, indiferente, dependente;
  • como chegou: por iniciativa própria, trazido por alguém, encaminhado a contragosto.

A atitude diz muito. Uma pessoa que tenta conduzir a entrevista para onde deseja, que seduz, que ataca ou que se fecha está mostrando algo sobre o funcionamento dela e, às vezes, sobre os temas que prefere evitar. O detalhamento dessa etapa, com o que cada achado sugere, está em apresentação e atitude no exame psíquico.

Com pessoas invasivas, agressivas ou com comportamento sexualizado, o profissional estabelece limites com clareza e respeito. O limite protege o atendimento e, muitas vezes, devolve a conversa ao tema que aquele comportamento, consciente ou não, tentava desviar.

O roteiro, função por função

A ordem abaixo é a mais usada, porque as primeiras funções condicionam a leitura das seguintes. Se a consciência está rebaixada, por exemplo, alterações de memória ou de percepção ganham outro significado.

Leitura em cinco camadas

Roteiro do exame psíquico

EtapaO que observarPerguntas possíveis
1. Aparência e atitudeCuidado pessoal, postura, contato, atitude na entrevistaObservação; “como você chegou até aqui hoje?”
2. ConsciênciaNível de alerta, clareza, flutuaçõesObservação ao longo da entrevista; respostas lentas ou perplexas
3. OrientaçãoTempo, lugar, pessoa, si mesmo“Que dia é hoje?”, “onde estamos?”, “por que você veio?”
4. AtençãoFixar, sustentar, mudar o focoObservação; se necessário, tarefas simples, como contar de trás para a frente
5. MemóriaFatos recentes e antigos, lacunas“O que você fez ontem?”, “quando isso começou?”
6. Linguagem e falaVelocidade, volume, fluência, compreensãoObservação da conversa espontânea
7. PensamentoCurso, forma, conteúdo“O que tem ocupado a sua cabeça?”, “os pensamentos vêm rápido demais?”
8. SensopercepçãoPercepções sem objeto, distorções“Já ouviu vozes ou viu coisas que outras pessoas não viam?”
9. Juízo de realidadeConvicções, abertura a revisar crenças“Como você explica o que está acontecendo?”, “existe outra explicação possível?”
10. Afetividade e humorHumor relatado, afeto observado, congruência“Como tem estado o seu humor?”, “o que ainda te dá prazer?”
11. Vontade e psicomotricidadeIniciativa, impulsos, ritmo motor“Tem conseguido fazer o que precisa?”, observação do movimento
12. RiscoIdeação suicida, planos, heteroagressividade“Você tem pensado em morrer ou em se machucar?”
13. CríticaReconhecimento de que algo mudou e precisa de cuidado“O que você acha que está acontecendo com você?”
14. Inteligência e personalidadeImpressão geral, funcionamento prévioHistória escolar e profissional; “como você era antes disso?”

A tabela é um guia. Na entrevista real, muitas etapas acontecem ao mesmo tempo, e a ordem se adapta à conversa.

Como perguntar sem transformar a sessão num interrogatório

Algumas estratégias ajudam a encaixar o exame na conversa:

  • Do aberto ao específico. Comece com “me conta o que está acontecendo” e só depois pergunte pelos detalhes: desde quando, com que frequência, com que intensidade.
  • Use as palavras da pessoa. Se ela disse “minha cabeça está a mil”, pergunte “como é essa cabeça a mil?”, e não “você tem aceleração do pensamento?”.
  • Normalize antes de perguntar. “Algumas pessoas, quando passam por algo assim, ouvem coisas ou têm a sensação de estar sendo observadas. Isso aconteceu com você?” torna mais fácil responder a perguntas delicadas.
  • Faça transições explícitas. “Agora vou fazer algumas perguntas mais objetivas, que faço a todas as pessoas” reduz o estranhamento das perguntas de orientação e de memória.
  • Observe a resposta, além do conteúdo. Quanto tempo a pessoa leva para responder, se muda de assunto, se a expressão combina com o que diz.

A empatia, aqui, é a capacidade de compreender a experiência a partir do ponto de vista da pessoa, e não do próprio. Ela é o que permite que perguntas difíceis sejam respondidas com sinceridade.

Perguntar sobre suicídio

A avaliação de risco faz parte de todo exame psíquico. A pergunta deve ser direta e feita com naturalidade: “você tem pensado em morrer?”, “já pensou em tirar a própria vida?”.

O receio de que perguntar aumente o risco não encontra apoio na pesquisa. Uma revisão de Dazzi e colegas, de 2014, reuniu 13 estudos com amostras da comunidade e de grupos de risco e não encontrou aumento da ideação suicida depois de perguntas sobre o tema; e sugeriu que falar sobre o tema pode até ajudar a reduzi-la.

Quando a resposta é positiva, o exame continua: frequência e intensidade dos pensamentos, existência de plano, acesso a meios, tentativas anteriores, uso de álcool ou drogas, fatores de proteção e rede de apoio. A resposta define a conduta, do plano de segurança combinado na sessão ao encaminhamento imediato para um serviço de urgência.

A mesma lógica vale para o risco de agressão a outras pessoas.

Quando formalizar o exame

Na maioria das entrevistas, a observação e a conversa bastam. Algumas situações pedem tarefas ou instrumentos mais formais:

  • suspeita de alteração da consciência ou de delirium, com flutuação do alerta, desorientação e desatenção que começaram há pouco tempo;
  • queixas de memória ou suspeita de declínio cognitivo, sobretudo em pessoas idosas;
  • suspeita de deficiência intelectual;
  • necessidade de documentar o estado cognitivo, por exemplo antes de uma decisão importante.

Nesses casos, tarefas simples de orientação, atenção e memória ajudam na triagem, e a avaliação completa pode exigir testes psicológicos ou neuropsicológicos e avaliação médica. Alterações agudas da consciência são urgência médica. O raciocínio sobre causas médicas e substâncias está em condição médica e substâncias no diferencial.

Os informantes

O exame registra o que o profissional observou, mas quem convive com a pessoa costuma ver o que não aparece na sala: mudanças de comportamento, episódios que a pessoa não relata, a diferença entre o jeito de antes e o de agora.

Familiares, a escola, colegas de trabalho ou chefias podem ser ouvidos com o consentimento da pessoa, ou dos responsáveis, no caso de crianças e adolescentes. A informação dos informantes entra na anamnese e ajuda a interpretar o exame. O valor da reconstrução do curso está em história longitudinal no diagnóstico.

Situações especiais

Crianças e adolescentes. O exame se apoia mais na observação do brincar, do desenho e da interação, e o que é esperado para a idade muda a leitura de cada função. Pais e escola são informantes essenciais. O detalhamento está em exame psíquico na criança.

Pessoas idosas. Consciência, orientação e memória ganham peso, e mudanças recentes pedem investigação médica. Déficits sensoriais, como perda auditiva, precisam ser considerados antes de concluir por alterações cognitivas.

Crise. O exame se concentra em consciência, orientação, risco e juízo de realidade. O restante pode esperar.

Diferenças culturais e de idioma. Formas de nomear o sofrimento, crenças religiosas e expressões idiomáticas precisam ser compreendidas no contexto da pessoa, como discuto em delírio ou crença cultural.

Atendimento online. A postura, a marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis, e atrasos de conexão podem parecer latência de resposta. Vale pedir ajustes de câmera, perguntar mais e, quando necessário, combinar avaliação presencial ou médica.

Como registrar: a súmula

A súmula do exame psíquico organiza os achados na ordem das funções, com descrições concretas, e termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica. Um exemplo breve:

Mulher de 45 anos, vestes adequadas, cuidado pessoal preservado, postura curvada, contato visual escasso, colaborativa. Vigil, orientada no tempo, no espaço e quanto a si. Hipoprosexia. Memória sem alterações grosseiras na entrevista. Fala em volume baixo, com latência aumentada. Pensamento lentificado, sem alterações de forma; conteúdo com ideias de culpa e de inutilidade, sem delírios. Nega alterações da sensopercepção. Humor referido como “sem vontade de nada”; afeto hipomodulado, congruente. Hipobulia. Lentificação psicomotora discreta. Ideação de morte passiva, sem plano. Crítica parcial. Impressão: síndrome depressiva, sem sintomas psicóticos, com risco a acompanhar.

O registro descreve antes de concluir. “Afeto hipomodulado” é uma observação; “depressão” é uma hipótese, que precisa da história e do curso. As regras de redação, com glossário e exemplos comentados, estão em súmula psicopatológica. A passagem da síndrome ao diagnóstico está em síndromes psicopatológicas.

O que fazer com o que o exame encontra

O exame psíquico termina numa decisão. Três grupos de achados pedem ação no mesmo dia: alterações da consciência e da orientação de início recente, que sugerem uma condição médica aguda; risco de suicídio ou de agressão com plano ou intenção; e sinais de catatonia ou de desorganização grave, que impedem a pessoa de cuidar de si.

Nos demais casos, os achados orientam o que investigar em seguida: a história de episódios anteriores, o uso de substâncias, a avaliação médica de causas físicas, a conversa com informantes. E alguns achados só ganham sentido com o tempo, o que faz do exame seguinte uma parte da própria avaliação.

Erros frequentes

  • Pular a consciência e a orientação e interpretar alucinações ou confusão como psicose, quando o quadro é um delirium.
  • Registrar só o relato e deixar de fora o que foi observado.
  • Usar rótulos no lugar de descrições, o que impede outro profissional de rever o raciocínio.
  • Evitar a pergunta sobre suicídio por receio de ofender ou de sugerir a ideia.
  • Fazer o exame uma vez só. O estado mental muda, e o exame precisa acompanhar o curso.
  • Deixar a primeira impressão guiar o resto. O tema está em vieses cognitivos no diagnóstico.

Um caso fictício: o roteiro aplicado

Um exame completo, com trechos de entrevista e comentário função por função, está em exame psíquico: exemplo comentado. A seguir, um caso mais breve.

Rafael é um personagem criado para este artigo.

Caso fictício

Rafael, 24 anos: “estou com muitos projetos”

Rafael chega trazido pela irmã. Veste roupas coloridas e combinadas de forma chamativa, fala alto, ri com facilidade e interrompe as perguntas para contar ideias. Diz que dorme três horas por noite há uma semana “e acorda ótimo”.

Está vigil e orientado. A atenção salta de um tema a outro, e ele se distrai com o barulho do corredor. A fala é acelerada e difícil de interromper. O pensamento é acelerado, com fuga de ideias; o conteúdo é de grandeza, com planos de abrir três empresas ao mesmo tempo, sem convicções delirantes. Nega alterações da sensopercepção. O humor é referido como “o melhor da vida”; o afeto é expansivo, com irritação quando contrariado. Está inquieto na cadeira. Nega ideação suicida. Acha que a família “está exagerando”.

Súmula resumida: vigil, orientado; distraibilidade; taquilalia; taquipsiquismo com fuga de ideias; ideias de grandeza sem delírio; humor eufórico com irritabilidade; agitação psicomotora leve; necessidade de sono reduzida; crítica ausente. Impressão: síndrome maníaca sem sintomas psicóticos. A investigação segue com história de episódios anteriores, uso de substâncias e avaliação psiquiátrica.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

O exame psíquico ganha valor quando é refeito e comparado ao longo do tempo, e as súmulas de cada encontro mostram o curso. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.

Na prática clínica

O exame começa na sala de espera. Antes de perguntar qualquer coisa, já observo como a pessoa chega, como se senta e como responde ao primeiro contato.

Faço as perguntas de orientação e de risco em todas as primeiras consultas, com naturalidade. Elas levam poucos minutos e mudam a condução quando algo aparece.

E escrevo a súmula logo depois do atendimento, com descrições, e não com rótulos. É o que me permite comparar um encontro com o outro.

Para pacientes e famílias

Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.

Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo

Como treinar o exame psíquico

O exame psíquico é a habilidade que separa uma boa conversa de uma avaliação clínica. Ele só se torna natural com prática: saber o que observar, o que perguntar e como registrar sem perder a relação com a pessoa atendida.

Na Formação em Psicopatologia, a anamnese, a entrevista e o exame psíquico são estudados antes dos transtornos, e depois aplicados em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR, da súmula à impressão sindrômica e ao diagnóstico. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.

É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é um roteiro seguro para o próximo atendimento.

Perguntas frequentes

O que é o exame psíquico?

É o registro do estado das funções mentais no momento da entrevista, feito a partir da observação do profissional. Também é chamado de exame do estado mental.

Qual a ordem do exame psíquico?

A mais usada começa por aparência e atitude, consciência, orientação e atenção, segue por memória, linguagem, pensamento, sensopercepção, juízo e afetividade, e termina com vontade, psicomotricidade, risco e crítica.

Perguntar sobre suicídio pode aumentar o risco?

As pesquisas indicam que não. Perguntar de forma direta e acolhedora permite avaliar o risco e pode até reduzir a ideação.

O que é súmula psicopatológica?

É o resumo escrito do exame psíquico, função por função, com descrições concretas, que termina com as alterações relevantes e a impressão sindrômica.

Qual a diferença entre anamnese e exame psíquico?

A anamnese reconstrói a história dos sinais e sintomas. O exame psíquico registra o estado das funções mentais no momento da avaliação.

Dá para fazer exame psíquico online?

Dá, com limites: postura, marcha e parte da psicomotricidade ficam menos visíveis. Quando necessário, combina-se uma avaliação presencial ou médica.

Referências

Rafael é um personagem fictício, e a súmula de exemplo descreve uma pessoa fictícia. As tabelas e as listas foram elaboradas com finalidade didática.

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