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Hipoprosexia, hiperprosexia e distraibilidade

Hipoprosexia, hiperprosexia e distraibilidade: o que são, onde aparecem, como diferenciar da vigilância ansiosa e do hiperfoco, como examinar e registrar.

Durante a sessão, um jovem desvia o olhar para a janela, por onde passa um ônibus, enquanto o celular acende ao lado; o psicólogo observa e anota.

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Neste artigo
  1. A atenção em quatro processos
  2. Distração não é distraibilidade
  3. Distraibilidade
  4. Hipoprosexia
  5. Aprosexia
  6. Hiperprosexia
  7. E a vigilância aumentada da ansiedade?
  8. Atenção e trauma
  9. As alterações lado a lado
  10. Como examinar a atenção
  11. Substâncias e medicamentos
  12. Atenção na infância e na velhice
  13. A atenção como sinal precoce de mudança do humor
  14. Erros comuns
  15. O curso como pista
  16. Como registrar
  17. Um caso fictício: a desatenção que tinha horário
  18. Como aprofundar a semiologia da atenção
  19. Perguntas frequentes
  20. Referências
Em resumo

Hipoprosexia é a diminuição global da atenção, com cansaço e lentidão, comum na depressão, na privação de sono e no efeito de substâncias. Distraibilidade é a dificuldade de fixar a atenção, que salta de um estímulo a outro, típica do TDAH e da mania. Hiperprosexia é a atenção exagerada e persistente sobre certos objetos, como na mania. Aprosexia é a abolição da atenção. A vigilância ansiosa e o hiperfoco são fenômenos diferentes, e o curso ajuda a separar tudo isso.

“Não consigo me concentrar” pode significar coisas muito diferentes. Para uma pessoa, a mente está lenta e pesada; para outra, ela pula de uma coisa para outra; para uma terceira, está presa a uma preocupação. Cada uma dessas experiências tem um nome em semiologia, e cada nome aponta para um conjunto diferente de hipóteses.

A visão geral de consciência, orientação e atenção está no hub de consciência e atenção. Aqui o foco são as alterações da atenção.

A atenção em quatro processos

A atenção não é uma coisa só. Costuma ser descrita em quatro processos:

  • capacidade de foco: o quanto a pessoa consegue se concentrar numa tarefa, que depende da dificuldade e do número de operações ao mesmo tempo;
  • atenção seletiva: escolher o que importa entre vários estímulos e deixar o resto de lado;
  • seleção e controle da resposta: inibir o que atrapalha e organizar a ação;
  • atenção sustentada: manter o foco ao longo do tempo, algo que depende do cansaço, do tédio e do interesse.

Duas qualidades atravessam esses processos. A tenacidade é a capacidade de fixar a atenção num objeto e mantê-la ali. A vigilância é a capacidade de deslocar a atenção quando surge algo novo. As alterações da atenção costumam desequilibrar uma ou as duas.

Distração não é distraibilidade

Os dois termos são confundidos com frequência, mas descrevem coisas opostas.

A distração é uma concentração intensa num conteúdo, com desligamento do resto. A pessoa lendo um livro que não ouve quando é chamada está distraída, e isso é normal: a tenacidade está alta, e a vigilância, baixa naquele momento.

A distraibilidade é a dificuldade de fixar a atenção. Qualquer estímulo desvia o foco, e a pessoa passa de uma coisa a outra sem conseguir se manter. Aqui, a vigilância está exagerada, e a tenacidade, reduzida. É uma alteração, e não um estado comum.

Distraibilidade

Na distraibilidade, a atenção se desprende da tarefa com facilidade e salta para o que acontece ao redor ou para outras ideias. Manter o foco exige um esforço grande, e mesmo assim ele escapa.

Como aparece na entrevista. A pessoa se volta para barulhos do corredor, comenta objetos da sala, perde o fio da pergunta, muda de assunto. No relato, aparecem tarefas começadas e abandonadas, objetos perdidos e compromissos que a pessoa esquece com frequência.

Onde aparece. No TDAH, é contínua e presente desde a infância, em vários contextos. Na mania e na hipomania, surge em episódios, junto com aceleração do pensamento, da fala e diminuição da necessidade de sono. Também aparece em alguns quadros orgânicos e intoxicações.

A diferença entre a distraibilidade contínua do TDAH e a episódica da mania está em TDAH ou bipolar.

Hipoprosexia

A hipoprosexia é a diminuição global da atenção. A pessoa se concentra com dificuldade em qualquer tarefa, sente a mente lenta, se cansa depressa, raciocina com esforço. É a alteração da atenção mais comum.

Como aparece na entrevista. Respostas lentas, pedidos para repetir a pergunta, perda do fio em perguntas longas, expressão de cansaço. A queixa costuma ser de “cabeça pesada” e de esquecimento.

Onde aparece.

  • Depressão, junto com humor deprimido, lentificação e perda de interesse.
  • Privação de sono, em qualquer pessoa. Uma meta-análise de Lim e Dinges, de 2010, com 70 artigos e 147 testes cognitivos, encontrou o maior efeito da privação de sono de curto prazo justamente nos lapsos de atenção simples.
  • Efeito de substâncias e medicamentos, como álcool, sedativos e alguns remédios.
  • Rebaixamento leve da consciência, como na obnubilação.
  • Condições médicas, como alterações da tireoide, anemia e infecções.

Como a hipoprosexia reduz o registro das informações, ela costuma aparecer como queixa de memória. Antes de concluir por um problema de memória, vale examinar a atenção e o humor.

Aprosexia

A aprosexia é a abolição da atenção: por mais fortes e variados que sejam os estímulos, a pessoa não consegue dirigir a atenção para eles. Aparece em rebaixamentos graves da consciência, em estados de estupor e em quadros muito graves. É uma situação de avaliação médica urgente.

Hiperprosexia

A hiperprosexia é um estado de atenção exagerada, que se mantém de forma persistente sobre certos objetos, com pouca fadiga. Aparece em episódios maníacos, em que a pessoa pode se fixar por horas em um projeto que faz parte das ideias do episódio, e em algumas intoxicações, como por estimulantes.

Hiperfoco não é o mesmo que hiperprosexia. O hiperfoco descrito por muitas pessoas com TDAH é uma absorção intensa numa atividade de interesse, dentro do padrão de sempre, sem mudança do humor ou da necessidade de sono. A hiperprosexia da mania faz parte de uma mudança global, que dura dias e vem com aceleração e euforia ou irritabilidade.

E a vigilância aumentada da ansiedade?

Na ansiedade, a atenção fica voltada para sinais de ameaça. A pessoa está concentrada, só que no lugar errado: no que pode dar errado, no próximo compromisso, no sinal do corpo que parece estranho. Uma meta-análise de Bar-Haim e colegas, de 2007, com 172 estudos, mostrou um viés de atenção para estímulos ameaçadores em pessoas ansiosas, de magnitude semelhante entre diferentes populações ansiosas e ausente em pessoas não ansiosas.

Essa vigilância aumentada é diferente da distraibilidade. Na distraibilidade, a atenção vai para qualquer estímulo; na ansiedade, ela é capturada pela preocupação e pela ameaça. O diferencial completo está em TDAH ou ansiedade: o diagnóstico diferencial da desatenção.

Atenção e trauma

Depois de experiências traumáticas, a atenção pode ficar voltada para sinais de perigo de forma persistente, com sobressaltos, dificuldade de relaxar e dificuldade de se concentrar em tarefas comuns. Lembranças intrusivas também disputam a atenção com o que está acontecendo, e momentos de desligamento dissociativo podem ser lidos, de fora, como distração. Perguntar por experiências traumáticas e por esses sintomas ajuda a não confundir esse quadro com um problema primário de atenção. A relação entre trauma e outros diagnósticos aparece em TEPT complexo ou borderline.

As alterações lado a lado

AlteraçãoTenacidadeVigilânciaComo a pessoa descreveOnde costuma aparecer
DistraçãoAltaBaixa“Estava tão concentrado que nem ouvi”Estado normal
DistraibilidadeBaixaAlta“Tudo me tira do foco”TDAH, mania, quadros orgânicos
HipoprosexiaBaixaBaixa“A cabeça está pesada, lenta”Depressão, sono, substâncias, obnubilação
AprosexiaAusenteAusentePouco ou nenhum relatoRebaixamentos graves, estupor
HiperprosexiaMuito altaVariável“Passei a noite nisso e não cansei”Mania, algumas intoxicações
Vigilância ansiosaReduzida para a tarefaAlta para ameaças“Não consigo parar de pensar no que pode dar errado”Ansiedade, trauma

A tabela organiza a observação. A conclusão depende do conjunto do exame e da história.

Como examinar a atenção

Observação. Durante toda a entrevista, observe se a pessoa acompanha as perguntas, se precisa de repetição, se se distrai com o ambiente, se perde o fio, se se cansa ao longo da conversa.

Perguntas. Pergunte para onde vai a atenção quando falha, desde quando isso acontece, em que situações piora e melhora, e como estão o sono e o uso de substâncias.

Tarefas simples. Quando for preciso formalizar, algumas tarefas ajudam: dizer os meses do ano de trás para a frente, subtrair sete a partir de cem, repetir sequências de números. O desempenho depende da escolaridade e da ansiedade do momento, e deve ser lido com esse cuidado.

Avaliação completa. Quando a dúvida persiste, a avaliação neuropsicológica mede os diferentes processos da atenção com instrumentos padronizados.

No atendimento online, atrasos de conexão e distrações do ambiente da pessoa podem se confundir com alterações da atenção. Vale perguntar se ela está num lugar tranquilo e sem interrupções.

Substâncias e medicamentos

Muitas substâncias alteram a atenção. O álcool, os calmantes e alguns antialérgicos e analgésicos produzem hipoprosexia. A cannabis prejudica a atenção sustentada e a memória de trabalho. Estimulantes, inclusive a cafeína em excesso, podem produzir inquietação e dificuldade de se fixar, e a abstinência de cada uma dessas substâncias também altera a atenção.

Por isso, perguntar pelo uso, com quantidades e datas, e pelos medicamentos em uso faz parte de toda avaliação de uma queixa de atenção.

Atenção na infância e na velhice

Na infância, a atenção sustentada cresce com a idade. Uma criança pequena que muda de atividade a cada poucos minutos pode estar dentro do esperado; o alerta está no prejuízo importante para a idade, em vários contextos. O tema está em exame psíquico na criança.

Na velhice, a velocidade de processamento diminui, e a atenção dividida fica mais trabalhosa, sem que isso signifique doença. Mudanças rápidas, flutuação ao longo do dia e desorientação, porém, pedem investigação de delirium e de outras causas médicas.

A atenção como sinal precoce de mudança do humor

Em pessoas com transtornos do humor, alterações da atenção podem ser dos primeiros sinais de um novo episódio. A distraibilidade crescente, junto com menos sono e mais energia, pode anunciar uma hipomania; a lentidão e o cansaço mental, uma recaída depressiva. Acompanhar a atenção ao longo do tratamento ajuda a perceber essas mudanças cedo.

Erros comuns

  • Chamar qualquer desatenção de TDAH, sem investigar a infância, o sono, o humor e as substâncias.
  • Confundir distração com distraibilidade, tratando como alteração a concentração intensa num tema.
  • Avaliar a atenção uma vez só, num momento de ansiedade, e concluir a partir disso.
  • Ignorar a escolaridade na leitura de tarefas como subtrair de sete em sete.
  • Esquecer a consciência: uma atenção muito reduzida, com oscilação, pode ser sinal de delirium.

O curso como pista

A forma como a alteração apareceu ao longo do tempo é uma das pistas mais úteis:

  • contínua desde a infância, em vários contextos: aponta para o TDAH;
  • em episódios, com mudanças do humor e do sono: aponta para os transtornos do humor;
  • de início recente e gradual, junto com humor deprimido: aponta para a depressão;
  • de início agudo e flutuante, com desorientação: aponta para o delirium;
  • ligada a fases de sono ruim ou de uso de substâncias: aponta para essas causas.

Como registrar

  • “Hipoprosexia: pede que perguntas sejam repetidas, perde o fio em perguntas longas, relata cansaço mental.”
  • “Distraibilidade: volta a atenção para barulhos do corredor e para objetos da sala; muda de assunto antes de concluir as respostas.”
  • “Atenção voltada para preocupações com a saúde da mãe, que retornam ao longo de toda a entrevista.”
  • “Hiperprosexia: relata ter passado duas noites trabalhando num projeto sem sentir cansaço.”

As regras de redação estão em súmula psicopatológica, e o roteiro do exame, em exame psíquico.

Um caso fictício: a desatenção que tinha horário

Rodrigo é um personagem criado para este artigo.

Caso fictício

Rodrigo, 32 anos: “acho que desenvolvi TDAH”

Rodrigo é enfermeiro e, há seis meses, trabalha em plantões noturnos alternados com plantões diurnos. Procura avaliação porque se sente disperso, esquece tarefas simples e lê a mesma página várias vezes. Pesquisou na internet e acredita ter TDAH.

Na entrevista, responde devagar, pede para repetir duas perguntas e boceja algumas vezes. A história mostra que foi um aluno atento, concluiu a graduação sem dificuldades e só passou a ter problemas depois da mudança de escala. Nos dias de folga em que consegue dormir bem, “a cabeça volta”. O humor está preservado, e ele usa café em grande quantidade para aguentar os plantões.

Leitura: a alteração é uma hipoprosexia de início recente, ligada à privação e à desorganização do sono, e melhora quando ele descansa. A ausência de sinais na infância e o curso afastam o TDAH como primeira hipótese. O plano inclui orientação sobre o sono e a cafeína, conversa sobre a escala de trabalho e reavaliação da atenção depois de algumas semanas.

Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.

A atenção muda com o sono, o humor e o tempo, e registrar o que a pessoa relata e o que se observa em cada encontro ajuda a perceber o curso. Se você grava os atendimentos com consentimento, o DocsPsi entrega o prontuário completo em 7 seções clínicas logo após a sessão, e a Linha do Tempo Terapêutica organiza a evolução entre os encontros. A IA redige e sugere; você revisa, decide e assina.

Na prática clínica

Quando alguém me diz que não consegue se concentrar, pergunto para onde a atenção vai quando falha. A resposta separa a mente dispersa, a mente lenta e a mente ocupada.

Pergunto também desde quando, e o que mudou na vida nesse período. Sono, trabalho, humor e uso de substâncias explicam muitas queixas.

E observo a atenção durante toda a entrevista, e não só nas perguntas sobre ela. O modo como a pessoa acompanha a conversa diz muito.

Para pacientes e famílias

Para quem deseja compreender o processo sem linguagem técnica, explico como funciona a avaliação psicológica e como as informações são reunidas e discutidas na devolutiva.

Leia a versão para pacientes: Avaliação psicológica diagnóstica em adultos: etapas, testes e laudo

Como aprofundar a semiologia da atenção

A queixa de desatenção é uma das mais frequentes na clínica, e cada alteração da atenção aponta para hipóteses diferentes. Distinguir distraibilidade, hipoprosexia, hiperprosexia e vigilância ansiosa exige conhecer a função em detalhe.

Na Formação em Psicopatologia, a atenção e as demais funções psíquicas são estudadas uma a uma, com suas alterações, e aplicadas em casos clínicos com a CID-11 e o DSM-5-TR. São 160 horas em 41 módulos, com certificado de verificação pública, e cerca de 1.250 alunos já passaram pela formação.

É um curso livre de formação continuada, sem título acadêmico. O que ele entrega é precisão para nomear a próxima queixa de desatenção.

Perguntas frequentes

O que é hipoprosexia?

É a diminuição global da atenção, com cansaço, lentidão e dificuldade de raciocinar. É comum na depressão, na privação de sono e no efeito de substâncias.

O que é distraibilidade?

É a dificuldade de fixar a atenção, que salta de um estímulo a outro. É típica do TDAH e aparece também na mania.

O que é hiperprosexia?

É a atenção exagerada e persistente sobre certos objetos, com pouca fadiga, como na mania e em algumas intoxicações.

Qual a diferença entre distração e distraibilidade?

Na distração, a pessoa está concentrada num tema e se desliga do resto, o que é normal. Na distraibilidade, a atenção não se fixa e salta de um estímulo a outro.

Hiperfoco é hiperprosexia?

São fenômenos diferentes. O hiperfoco do TDAH é uma absorção intensa em atividades de interesse, dentro do padrão de sempre. A hiperprosexia da mania faz parte de uma mudança global do humor e da energia.

A falta de sono prejudica a atenção?

Muito. A privação de sono afeta sobretudo a atenção simples e sustentada, com lapsos frequentes.

Referências

Rodrigo é um personagem fictício. As tabelas e as listas foram elaboradas com finalidade didática.

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