Relacionamento intercultural: diferenças, conflitos e acordos
Relacionamento intercultural: onde as diferenças aparecem, a língua do casal, quem mudou por quem, família, filhos, brigas que voltam e como criar acordos.

Neste artigo
- O que é um relacionamento intercultural?
- Onde as diferenças costumam aparecer?
- A língua do casal
- Quem mudou de país por quem?
- As famílias de origem
- Filhos entre duas culturas
- Conflito cultural ou conflito do casal?
- Por que as mesmas brigas voltam
- Como construir acordos
- Quando o relacionamento vira risco
- Como a terapia pode ajudar
- Um exemplo fictício
- Perguntas frequentes
- Avaliação inicial online
- Fontes
Amar alguém de outra cultura é também aprender outra forma de amar. Os desencontros que aparecem no caminho são comuns e costumam ter explicação. Entender de onde vêm ajuda o casal a conversar em vez de brigar sempre pela mesma coisa.
Num relacionamento intercultural, as diferenças costumam aparecer na família, no dinheiro, no tempo, nos papéis de gênero, na forma de brigar e na criação dos filhos. A língua do casal e a pergunta sobre quem mudou de país por quem criam desequilíbrios que precisam de conversa. Boa parte dos conflitos se repete a vida inteira; o que protege o casal é conseguir dialogar sobre eles e construir acordos com elementos das duas culturas.
Ela acha que visitar a família todo domingo é amor. Ele acha que é invasão. Ela fala alto quando está animada, e ele ouve uma briga. Ele diz com franqueza o que pensa do jantar, e ela ouve uma grosseria. Os dois se amam e, ainda assim, parecem falar línguas diferentes, às vezes literalmente.
Casais formados por pessoas de países diferentes vivem essas cenas com frequência, e muitos brasileiros que moram fora estão nessa situação. O guia geral sobre terapia para quem vive no exterior está em psicóloga brasileira online para quem mora no exterior.
O que é um relacionamento intercultural?
É uma relação entre pessoas formadas em culturas diferentes. O caso mais visível é o de parceiros de países diferentes, mas a diferença cultural também existe entre religiões, regiões de um mesmo país e classes sociais. Aqui, o foco é o casal em que uma das pessoas é brasileira e a outra vem de outro país, vivendo no exterior ou no Brasil.
Cultura, nesse sentido, é o conjunto de regras invisíveis que cada pessoa aprendeu em casa: como se demonstra afeto, quanto a família participa da vida do casal, o que é pontualidade, o que é educado dizer em voz alta. Ninguém escolhe essas regras, e quase ninguém percebe que as segue até encontrar alguém que segue outras.
A mesma situação pode ter sentidos opostos em culturas diferentes. O que é apoio para uma pessoa pode ser peso para a outra. Por isso a pergunta “quem está certo?” costuma levar a lugar nenhum.
Onde as diferenças costumam aparecer?
Um estudo com casais interculturais, publicado em 2011 por Rebecca Bustamante e colegas, descreveu fontes de tensão ligadas à cultura, como papéis de gênero, tempo, religião e família. Adaptadas à realidade de brasileiros com parceiros de outros países, elas costumam aparecer assim:
- Família de origem. Frequência de visitas, duração das estadias, opinião dos pais nas decisões do casal, ajuda financeira aos parentes.
- Papéis de gênero. Quem cuida da casa, quem cuida dos filhos, quem ganha mais, quem decide. Expectativas que parecem naturais para um podem soar antiquadas ou estranhas para o outro.
- Tempo. Pontualidade, planejamento, a hora de chegar a uma festa, quanto tempo antes se marca um encontro.
- Expressão de emoções. Falar alto ou baixo, tocar ou manter distância, dizer tudo de forma direta ou por rodeios.
- Forma de brigar. Discutir na hora ou esfriar antes, levantar a voz ou se calar, pedir desculpas de forma explícita ou retomar o dia como se nada tivesse acontecido.
- Dinheiro. Conta conjunta ou separada, quanto se poupa, quanto se gasta com a família e com festas.
- Religião e festas. Quais datas se comemoram, como, com quem e em que país.
- Vida social. Casa aberta para os amigos a qualquer hora ou encontros sempre marcados com dias de antecedência.
Nenhum desses temas é exclusivo de casais interculturais. A diferença é que, neles, cada divergência vem reforçada por uma cultura inteira, e cada lado sente que está defendendo algo maior do que a própria preferência.
A língua do casal
Muitos casais interculturais vivem numa língua que é a primeira de um e a segunda do outro, ou a segunda dos dois. Essa situação costuma criar um desequilíbrio que quase ninguém nomeia.
Quem fala na segunda língua costuma se cansar mais nas conversas longas, perde nuances do humor e da ironia e tem menos palavras para brigar. Numa discussão, a pessoa mais fluente tende a vencer pelo vocabulário, e a outra fica com a sensação de ter sido derrotada sem conseguir se explicar.
O afeto também muda de peso. Numa pesquisa com 1.459 pessoas multilíngues, o linguista Jean-Marc Dewaele observou que a maioria sentia a frase “eu te amo” com mais força na primeira língua. Dizer o que se sente na língua do outro pode soar mais leve do que se gostaria.
O que ajuda:
- aprender a língua da outra pessoa, mesmo sem fluência, para entender o mundo de onde ela vem;
- checar o entendimento nas conversas importantes: “o que você entendeu do que eu disse?”;
- permitir pausas nas brigas para organizar o pensamento;
- ter momentos em que cada um possa falar na própria língua, mesmo que o outro entenda só parte.
Quem mudou de país por quem?
Em muitos casais interculturais, uma das pessoas deixou o próprio país para viver no país da outra. Essa escolha costuma ser feita por amor e com entusiasmo, e mesmo assim cria uma assimetria.
Quem mudou perdeu a rede de amigos, a família por perto, muitas vezes a carreira, e vive na língua e nas regras do outro. Quem está em casa tem trabalho, família, amigos e referências, e nem sempre percebe o tamanho da perda do parceiro. Essa experiência de perda está descrita em luto migratório.
Com o tempo, podem surgir frases como “eu larguei tudo por você” de um lado, e “eu nunca pedi isso” do outro. A dependência também pesa: do visto, da renda, da rede social do parceiro. A sensação de solidão dentro do casal é comum nesses casos, e o artigo sobre solidão morando fora trata dela.
Nomear essa assimetria em voz alta costuma ser o primeiro passo. Ela pede cuidado dos dois: de quem mudou, para construir uma vida própria no novo país; de quem ficou em casa, para reconhecer a perda do outro e abrir espaço na própria rede.
As famílias de origem
A família costuma ser o terreno mais sensível. Para muitos brasileiros, a presença constante da família é uma forma de amor, e receber os pais por um mês parece natural. Para parceiros de culturas mais reservadas quanto à vida privada, a mesma visita pode ser vivida como invasão.
Outros temas frequentes:
- a opinião dos sogros sobre a criação dos filhos;
- o envio de dinheiro para a família no Brasil;
- o país onde se passa o Natal e as férias;
- a distância dos avós e o peso de cuidar dos pais que envelhecem longe;
- a sensação de que a família de um não aceita completamente o outro.
Acordos explícitos ajudam: quanto tempo duram as visitas, onde os parentes ficam hospedados, como se alternam as festas de fim de ano, quanto do orçamento vai para a ajuda às famílias. O que funciona melhor é o que o casal combina, e não o que cada cultura considera óbvio.
Filhos entre duas culturas
A chegada dos filhos costuma trazer à tona diferenças que estavam adormecidas. Que língua se fala em casa? Que religião, se alguma? Que nome? Que escola? Em que país a criança vai crescer?
Crianças de casais interculturais podem se beneficiar muito de duas línguas e duas referências culturais. Para isso, os pais precisam de um projeto comum, em vez de uma disputa sobre qual cultura vai prevalecer. Muitas famílias combinam que cada pai ou mãe fala a própria língua com os filhos, que as festas das duas culturas entram no calendário e que os avós dos dois lados têm lugar na vida das crianças.
Em caso de separação, a questão dos filhos ganha outra dimensão. A Convenção da Haia de 1980, promulgada no Brasil em 2000, trata da transferência ou retenção de crianças em outro país sem a concordância do outro responsável. Antes de qualquer mudança de país com os filhos numa separação, busque orientação jurídica.
Conflito cultural ou conflito do casal?
Algumas brigas são culturais, outras não, e essa distinção é importante. A cultura pode virar uma explicação cômoda para problemas que são da relação ou da pessoa: “é coisa de gringo”, “é coisa de brasileira”. Quando tudo é atribuído à cultura, ninguém se responsabiliza.
O caminho inverso também acontece: uma diferença cultural real é lida como falta de amor ou de respeito. O parceiro que não liga para a sogra no aniversário pode estar seguindo o costume da própria família, e não desprezando a dela.
Algumas perguntas ajudam a separar as duas coisas:
- Na família e no país dele ou dela, esse comportamento é comum?
- Essa atitude aparece só nesse tema ou em muitos outros?
- Quando a diferença é explicada, a pessoa se mostra disposta a negociar?
- O conflito envolve desrespeito, controle ou medo?
Se a resposta à última pergunta é sim, o problema é outro, e está tratado mais adiante.
Por que as mesmas brigas voltam
Pesquisas do Instituto Gottman, que estuda casais há décadas, indicam que 69% dos conflitos de um casal são perpétuos: nascem de diferenças de fundo entre as duas pessoas e voltam ao longo da vida. Isso vale para qualquer casal, e em casais interculturais muitas dessas diferenças têm raiz cultural.
A mesma pesquisa aponta que o importante é conseguir manter um diálogo sobre esses temas, e não resolvê-los de vez. Quando o diálogo trava, o conflito se endurece e o casal tende a se afastar emocionalmente.
Na prática, isso muda a pergunta. Em vez de “como acabar com essa briga?”, o casal passa a se perguntar: “como conversar sobre isso sem nos ferir, sabendo que vai voltar?”.
Como construir acordos
- Perguntar o sentido antes de discutir o hábito. “O que significa para você receber a sua mãe por um mês?” A resposta costuma revelar algo importante, como cuidado, lealdade ou medo de perder o vínculo.
- Contar a própria história. Explicar como era na sua casa ajuda o outro a entender que a sua reação tem raiz, e não é capricho.
- Separar o inegociável do negociável. Cada pessoa costuma ter poucos pontos realmente essenciais. O resto pode ser combinado.
- Alternar e compor. Um Natal em cada país, festas das duas culturas, uma rotina que misture os dois jeitos.
- Usar o humor. Casais que riem das próprias diferenças costumam atravessá-las melhor, e o estudo de Bustamante e colegas encontrou o humor entre as estratégias usadas pelos casais.
- Criar uma cultura do casal. Com o tempo, muitos casais constroem uma terceira cultura, com rituais, expressões e regras próprias, que já não são de um nem do outro.
Quando o relacionamento vira risco
Diferenças culturais nunca justificam violência. Controle do dinheiro, isolamento dos amigos, retenção de documentos, ameaças ligadas ao visto ou aos filhos, humilhações e agressões físicas são violência, em qualquer país e em qualquer cultura.
Quem mora fora pode ficar em posição mais frágil nessas situações, por depender da outra pessoa para o visto, a moradia ou a renda, e por não conhecer bem as leis e os serviços locais. Nesses casos:
- em perigo imediato, ligue para o número de emergência do país onde você está;
- procure o consulado brasileiro, que presta assistência a brasileiros no exterior, inclusive em situações de violência;
- busque os serviços locais de apoio a vítimas de violência doméstica;
- guarde cópias dos seus documentos e dos documentos dos filhos em lugar seguro.
Como a terapia pode ajudar
A terapia individual oferece um espaço para entender o seu lugar no casal: o que vem da sua história, o que vem da sua cultura, o que você precisa e o que pode negociar. Fazer isso em português, com alguém que conhece as suas referências, costuma facilitar o acesso ao que se sente de verdade, sem o filtro da segunda língua.
Em alguns casos, a terapia de casal também pode ser indicada, com uma profissional que consiga atender os dois numa língua comum.
Um exemplo fictício
Priscila é uma personagem criada para este artigo.
Priscila, 34 anos: “para ele, minha mãe é uma visita; para mim, é minha mãe”
Priscila mora em Munique com o marido, Lukas, há quatro anos. Os dois brigam sempre pelo mesmo tema: a mãe dela quer passar dois meses com o casal, e Lukas acha que dez dias são suficientes. Ela se sente rejeitada; ele se sente invadido na própria casa.
Na terapia online, Priscila percebeu que, para ela, a presença da mãe significa amor e pertencimento, sobretudo longe do Brasil. Também percebeu o quanto se sentia sem lugar próprio em Munique, com poucos amigos e um trabalho abaixo da sua formação. Levou para a conversa com Lukas a pergunta sobre o sentido da casa para ele, e ouviu que, depois de semanas de trabalho intenso, a casa era o único lugar de descanso.
O casal combinou visitas de quatro semanas, parte delas com a mãe hospedada num apartamento próximo, e um passeio só dos três a cada fim de semana. Priscila começou a construir uma rede própria na cidade. O tema ainda aparece, mas agora eles conseguem conversar sobre ele.
Vinheta criada para fins didáticos. Não descreve nenhuma pessoa real.
Procure uma psicóloga quando as brigas se repetirem sem saída, quando você se sentir sem lugar na relação ou no país, ou quando a tristeza e a ansiedade atrapalharem a rotina. No Brasil, em risco imediato, procure o SAMU pelo 192; o CVV, pelo 188, oferece apoio emocional. Fora do Brasil, use o número de emergência do país onde você está.
Quando alguém me procura por conflitos num relacionamento intercultural, peço que me conte como era a vida na sua casa de origem e como imagina que era na casa do parceiro ou da parceira.
Conversamos sobre as brigas que se repetem e sobre o sentido que cada hábito tem para cada um, antes de pensar em quem tem razão.
E, como atendo online, combinamos desde o início o horário no fuso de cada lado e o que fazer numa emergência, com o número local.
Se as diferenças no seu relacionamento estão pesando, posso ajudar. Atendo adolescentes e adultos em psicoterapia online, no Brasil e no exterior, com a abordagem junguiana e uma base sólida em psicopatologia e psicologia da saúde. Também realizo terapia de sessão única e avaliação psicológica diagnóstica, inteiramente online.
Sou psicóloga há 18 anos e trabalho no serviço público de saúde. Na consulta inicial, você me conta o que está vivendo, eu explico como trabalho e avaliamos juntos se faz sentido seguir. Conheça minha trajetória na página sobre mim.
Perguntas frequentes
O que é um relacionamento intercultural?
É uma relação entre pessoas formadas em culturas diferentes, como parceiros de países diferentes, com regras distintas sobre família, afeto, tempo e dinheiro.
Quais são os conflitos mais comuns em casais interculturais?
Família de origem, papéis de gênero, dinheiro, tempo, forma de expressar emoções e de brigar, religião, festas e criação dos filhos.
Como lidar com a família do parceiro estrangeiro?
Com acordos explícitos sobre visitas, hospedagem, festas e ajuda financeira, e com a pergunta sobre o sentido que a família tem para cada um.
Falar em outra língua atrapalha o relacionamento?
Pode criar desequilíbrio, porque quem fala na segunda língua se cansa mais e tem menos palavras para brigar. Aprender a língua do outro e checar o entendimento ajudam.
Toda briga de casal intercultural é cultural?
Algumas são, outras são da relação. A cultura pode explicar diferenças reais, mas também pode virar desculpa para problemas da relação. Desrespeito, controle e medo nunca são culturais.
A terapia online ajuda casais interculturais?
A terapia individual ajuda a entender o próprio lugar no casal, na sua língua. Em alguns casos, a terapia de casal também pode ser indicada.
Avaliação inicial online
Na consulta inicial, conversamos sobre o seu relacionamento, as diferenças que pesam e o que você procura. Combinamos também horário e cuidados de emergência, e decidimos juntos o próximo passo.
- Você manda uma mensagem pelo WhatsApp, pelo botão abaixo. A mensagem já vem pronta.
- Minha secretária responde, em horário comercial, explica valores e horários e agenda a sua consulta.
- Na primeira conversa, vamos entender o que está acontecendo e se o atendimento online é o caminho mais adequado para você. Se não for, eu indico o encaminhamento certo.
Fontes
Priscila e Lukas são personagens fictícios. As listas foram elaboradas com finalidade didática.
- Bustamante RM, Nelson JA, Henriksen RC, Monakes S. Intercultural couples: coping with culture-related stressors. The Family Journal, 2011.
- Dewaele JM. The emotional weight of “I love you” in multilinguals’ languages. Journal of Pragmatics, 2008.
- The Gottman Institute. Managing conflict: solvable vs. perpetual problems.
- Brasil. Decreto nº 3.413, de 14 de abril de 2000. Promulga a Convenção sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças.
Este conteúdo é informativo e foi escrito por uma psicóloga para ajudar você a compreender o que está vivendo. Ele não substitui uma avaliação individual. Se você está em risco agora, ligue 188 (CVV, 24 horas, gratuito) ou 192 (SAMU), ou procure atendimento de emergência.
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